Uma senhora, rapariga nova, com ar de executiva, toda ela pràfrentex, camisa e blazer à homem (ficava-lhe bem, diga-se sem favor), toda desembaraçada, ao que julgo secretária de estado, apareceu em frente do Crespo da SIC Notícias, a dizer umas coisas sobre a história dos deficientes, velhinhos e quejandos, a quem o socraticóide governo se prepara para presentear com uns cortezitos no rendimento, seja por via fiscal, seja por malandrices várias em sede de segurança social.
Coisa de somenos, defendia a rapariga. E lá foi espraiando os argumentos que quis, que o Crespo, honra lhe seja, é um entrevistador com pés e cabeça, não uma burra pretenciosa como as suas colegas de serviço aqui e ali, que passam a vida a interromper as pessoas com perguntas estúpidas e não deixam ninguém dizer de sua justiça até ao fim.
A senhora foi falando, falando. O Crespo, de vez em quando, dava-lhe um apertãozinho. A senhora ia ficando cada vez mais atrapalhada, até que… meu Deus, até o Crespo ficou gago, banzo, quadrupetizado: a senhora declarou, nem mais nem menos, que 20% (vinte por cento) dos velhotes cá do sítio têm pensões de mais de 10.000,00 (dez mil euros- dois mil contos) por mês, e por isso não merecem outra coisa senão ser penalizados!
O Crespo ainda tentou que a rapariga esclarecesse melhor esta matéria, mas tinha ficado tão estúpido – coitado, como eu o compreendo – que nem coragem teve para levar a coisa até onde devia.
Imagine-se a tempestade político-mediática que um acontecimento destes teria causado nos bons tempos de Santana Lopes: haveria 14 primeiras páginas a acusar o governo de ser doido e aldrabão, o Marcelo passaria cinco sessões, pelo menos, a invectivar o Primeiro Ministro, o dr. Sampaio chamaria a Belém sete ministros, três líderes partidários, dois generais, o Carvalho da Silva e o outro da UGT, no Rossio montava-se uma banca para recolher assinaturas de cidadãos indignados, a drª Maria José publicava uma diatribe na Nova Gente e o dr. Machete pedia o reforço do presidencialismo, já!
Nos desgraçados tempos em que hoje vivemos, a senhora, toda fataça, pode dizer o que muito bem lhe vier à cabeça. A esquerda, a direita, a “informação”, o Primeiro Ministro, a oposição, o Bernardino, o Marcelo, o sindicato dos juízes, os passeantes da tropa, tudo minha gente, se baba de ternura perante estas coisas.
Os velhinhos, os doentes, os deficientes, esses, porque são velhinhos, doentes e deficientes, não podem fazer manifestações. Que se tramem, que nem no caixote do lixo dos Marcelos têm lugar.
António Borges de Carvalho

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