Francamente, este governo não presta: então, depois de Vossa Excelência e os seus rapazes terem vivamente recomendado que aumentasse os impostos, não os aumentou! Que desplante, que falta de vergonha, que incompetência!
Vossa Excelência e os seus rapazes têm-se farto de dizer que a coisa assim não vai lá. Cortar na despesa, não! A não ser que o governo fizesse um “estudo”, uma reforma “global”, uma coisa que se visse e de que Vossa Excelência e os rapazes gostassem. O governo é burro! Então não percebe que o que tem a fazer é seguir a política que Vossa Excelência e os seus rapazes disserem que é boa, embora, e muito bem, Vossa Excelência e os seus rapazes jamais tenham dito o que querem, ou o tenham dito de forma tão especiosa e confusa (as últimas declarações de Vossa Excelência são lapidarmente representativos desta honrosa postura) e tão iletrada que, em boa verdade, ninguém percebeu?
É claro que, para o ano, o governo vai ter de aumentar os impostos. Ou seja, para já, desobedece a Vossa Excelência e os seus rapazes, mas, daqui a uns meses, vai obedecer. Só que, como é evidente, quando o governo aumentar os impostos, obedecendo, Vossa Excelência e os seus rapazes chumbarão o aumento de impostos e dirão, como é óbvio, que o governo devia baixar a despesa, mediante outra reforma global, ou o que Vossa Excelência e os seus rapazes acharem por bem, desde que não se perceba o que querem, para além de chatear este mundo e o outro.
Isto tudo porque o estúpido do governo ainda acha que Vossa Excelência e os seus rapazes têm alguma coisa a ver com a Constituição, coisa que já não passa pela cabeça de ninguém. O governo é tão estúpido que se recusa a aceitar que Vossa Excelência e os seus rapazes se rejam por princípios em vez de normas – pela simples razão que não há na Constituição uma única norma que Vossa Excelência e os seus rapazes tenham considerado violada. O governo é tão estúpido que ainda não meteu na cabeça que o que importa é a exegese que Vossa Excelência e os seus rapazes fazem dos tais princípios, numa tarefa talmúdica, ou uma espécie de rebuscada interpretação dos preceitos e previsões do sapateiro/profeta de Trancoso.
Adiante. Dada a última charada que Vossa Excelência e os seus rapazes deitaram cá para fora, o governo, para já, vai cortar 5% na educação, 8,6% na administração interna, 9,1% nos negócios estrangeiros, 12% nas finanças, 35% na economia, 3,2% na saúde, 13,5% na justiça, 3,3% na defesa, 32% na agricultura, 10,6% na cultura. Por razões óbvias, vai aumentar 4,9% na segurança social e, por razões não óbvias, 10,2% na presidência do conselho. Assim tentará ir buscar os 860 milhõezinhos que Vossa Excelência e os seus rapazes, no uso da vossa esmerada inteligência, cultura e ideologia, retiraram ao orçamento, a juntar aos montes de outros milhões que já tinham retirado.
O resultado vai ser que os professores e quejandos vão desatar aos berros, os polícias também, os diplomatas terão achaques vários, os fiscais de finanças farão greve, o tipo do CDS da economia vai dizer cobras e lagartos pelas esquinas, os magistrados e os funcionários da justiça vão dar por paus e por pedras, os médicos, enfermeiros e maqueiros é o que se sabe, os oficiais, sargentos e praças da tropa vão entrar em polvoró, os agricultores nem se fala e, last but not least, os “criadores de cultura” vão dar ainda mais largas à sua indignação por falta de subsídios a fundo perdido.
Vossa Excelência e os seus rapazes podem estar orgulhosos das vossas obras. O povo, que vai levar na touca com falta de serviços e não só, não vai perceber ou agradecer o bem que Vossa Excelência e os seus rapazes lhe fazem. Ainda bem. Agradecer a sério só o Jerónimo, o velho, a rapariga e o IRRITADO. Os primeiros por convicção, o último por ironia e desprezo.
Obrigadinho.
27.8.14
António Borges de Carvalho

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