IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


O QUE DEVIA ACONTECER MAS NÃO ACONTECERÁ

 

O que toda a gente já sabia estourou na imprensa, como, mais tarde ou mais cedo, não podia deixar de ser.

O jornal “Sol”, que tanto apadrinhou o senhor Pinto de Sousa – a ponto de o IRRITADO lhe chamar “Sólcrates” -, tendo-lhe estalado a batata na boca, caiu em si e resolveu procurar, e publicar, parte da  verdade a que temos direito.

Nada de substancialmente novo. Só a confirmação, via textos autênticos (não escutas, que essas continuam escondidas), do que há tanto tempo não havia quem não pensasse.

 

O problema não está nesta, agora evidentíssima, certeza.

Que o senhor Pinto de Sousa interferia abusivamente na informação, que o senhor Pinto de Sousa se servia da PT para, mediante uns milhões, calar certa gente, que o senhor Pinto de Sousa mentia ao parlamento com quantos dentes tem na boca, que o senhor Vara e outros constituíam testas de ferro do senhor Pinto de Sousa nas suas manobras ilegítimas, tudo era do conhecimento geral.

 

Importa agora (ou importaria se o país ainda existisse ou se a democracia ainda tivesse algum élan vital) tirar as consequências do que, doravante devidamente documentado, é do domínio público.

 

Comecemos pelo princípio:

– Que devia acontecer no momento em que passa a ser público e notório que é pura mentira a ausência de qualquer indício sobre as actividades ilegais do grupo que o senhor Pinto de Sousa chefia, tal como afirmada no despacho do Presidente do Supremo, e que tal mentira foi fabricada em defesa política do senhor Pinto de Sousa? Uma só coisa podia, e devia, suceder: a demissão imediata do Dr. Noronha do Nascimento.

– Que devia acontecer quando se conclui publicamente que o despacho secreto do Procurador-Geral da República ia no mesmo sentido político que o daquele magistrado? Uma só coisa podia, e devia, acontecer: a demissão imediata do autor do despacho secreto.

– Que deveria verificar-se, imediatamente, quando a careca do primeiro-ministro é, desta forma evidente, descoberta? Uma só coisa se podia, e deveria, verificar: a demissão imediata do primeiro-ministro.

 

Tudo isto aconteceria, imediatamente, se vivêssemos num país onde o regime democrático não estivesse às portas da morte.

 

No estado a que chegou a nossa democracia, porém, o que acontece?

– Um ou outro partido pede esclarecimentos (ainda não estão esclarecidos?).

– Parece há uns tipos que querem fazer um inquérito parlamentar. Para inquirir o que toda a gente já sabe?

– Uns comentadores entretêm-se a fazer intelectualíssimos juízos sobre o que pode vir a acontecer na hipótese A, B ou C, no cenário X, Y ou Z, mais preocupados com o que pode acontecer ao orçamento do que com o que vai acontecendo no país e ao país.

– O Partido Socialista, cada vez mais estúpido, não é capaz de mandar o senhor Pinto de Sousa para casa e propor ao Presidente da República outra gente, com algum carácter, alguma seriedade, algum amor à verdade, algum respeito pelos cidadãos, alguma noção, mesmo que básica, do que é um Estado de Direito, que se proponha, inclusivamente, proceder à rápida elaboração de um orçamente rectificativo que mereça alguma credibilidade.

– Não. O Partido Socialista, possuído da mais primária partidarite, desdobra-se em calores ofendidos pela publicação do que há muito devia ter sido publicado. Até aquele rapazito, o Seguro, que era tido por pessoa séria, veio à televisão desdobrar-se nas mais esfarrapadas desculpas, em vez de arriscar tratar do assunto. Até o senhor Alegre, o tal que ninguém cala, se calou. O seu apoiante Louça mandou uns tipos meter os pés pelas mãos.

 

O Presidente da República tem uma óptima oportunidade para exercer, a sério, a chamada magistratura de influência e para cumprir a sua obrigação de defender as instituções. Como? Por exemplo chamando as “referências” da República e do PS, v.g. Mário Soares, Almeida Santos e Jorge Sampaio, e pedir-lhes que, em nome da Nação e do regime, contribuam para que o PS faça o que tem a fazer. Além disso, ciente da insofismável verdade que o país não pode viver democraticamente quando os mais altos representantes da Justiça se comportam de forma tão incrível, chamá-los e incentivá-los a que se vão embora o mais depressa possível.

 

Mas, ou muito me engano ou, para além da pessegada dos inquéritos, nada se passa nem se vai passar.

O senhor Pinto de Sousa continuará a dizer que são maus para ele, que há cabalas contra ele, que as forças negras não param de querer demoli-lo. Espera um mês ou dois, estas águas arrefecem como arrefeceram as do canudo, as do Freeport, as da Cova da Beira e tantas outras, e continuará, triunfal, a vender a sua repugnante banha da cobra por tudo quanto é sítio, enquanto o país definha e a democracia entra em coma.

 

7.2.10

 

António Borges de Carvalho


8 respostas a “O QUE DEVIA ACONTECER MAS NÃO ACONTECERÁ”

  1. Espumado e bem salivado,ei-lo que surge em nome da democracia(a dele),a pedir a cabeça dos putativos responsáveis pelo encobrimento de um hipotético tenebroso grupo que pretende subverter a democracia neste país.E quem escolhe para carrasco?O impoluto Cavaco,cujo,foi conivente com um bando que abriu um banco para o assaltarem por dentro.Qual o fundamento de tal exigência?Transcrições de escutas telefónicas,afirma que autênticas.Como sabe que são autênticas?Esta técnica está estafada,nasceu com o caso Casa Pia.Interessante é verificarmos que o consabido defensor das amplas liberdades de imprensa e outras, não reprove o método,pelo contrário,dá-lhe todo o crédito e firma-se nele para mais uma vez verter os seus ódios.Veremos a que é que nos conduz esta aspiral de atentados à dignidade,já não digo das pessoas,mas da democracia,tudo feito em nome de um jornalismo de investigação.Agora venha-me dar açoites,que eu estou a defender o Pinto de Sousa!!!

  2. Men occasionally stumble over the truth, but most of them pick themselves up and hurry off as if nothing had happened…Não posso deixar de me sorrir com os inglórios esforços do nosso estimável Tecelão para provar a inocência (oh santa inocência!) do tão infeliz quanto impoluto primeiro-ministro que o sábio povo elegeu. Baldadamente lá vai o óptimo Tecelão tecendo as suas teorias, embaraçado nas teias que custosa e periclitantemente tenta apor à límpida existência de simples factos que não resistem à análise de uma inteligência mesmo mediana, desde que descomprometida.E rio-me porque me traz à memória a burlesca situação do Peppone, no alegre mundo de Guareschi, sempre enleado nas contradições que o comunismo encerra e ele não podia/queria ver.Quem não viu o Zézito, algo encabulado, numa entrevista à televisão, a rapar das fotocópias dos recibos das propinas para provar que tinha ido às aulas e estudado a lição – não sabe o que é a verdadeira pose de Estado.Porque será que na nossa original revolução – onde aconteceu tanta coisa jamais vista noutros povos do mundo – só a ele calhou que alguém se lembrasse de dizer que as suas habilitações literárias eram falsificadas?Porque será que com ele tudo seja tão complicado, tão intrincado, tão necessário de muito laboriosas explicações? Porque será que a família dele, uns por cá, outros na China, falou com empresários, com intermediários, com subsecretários – e logo num processo tão estranhamente legislado a poucos dias de eleições, e logo por azar para alterar a lei, e por maior azar ainda com os ingleses a detectarem ali indícios de “serious fraud”?Porque imerecida fatalidade ele conversa com pessoas que convivem com dolosos industriais do lixo?É que se quisermos ver, por absurdo, que ele é culpado – tudo encaixa na perfeição. Já se pusermos a hipótese de ser inocente, as pontas soltas dos diversos episódios dariam ainda assim para entrelaçar uma longa e sólida corda onde o poderíamos enforcar, sem muitos escrúpulos de ser injustos.O Daniel falou na Casa Pia. É verdade, tudo aquilo foi uma tétrica invenção dos biltres adolescentes para tramar os pobres socialistas, pois claro. Só que lembro-me de ver o Pedroso, corado até às orelhas, a engolir em seco enquanto lia uma chocha declaração invocando nada ter a ver com o caso. E perguntei a mim mesmo então se seria possível que uma pessoa absolutamente inocente reagisse assim frouxamente a uma acusação tão tremenda e tão repugnante. Alguém inocente, político ou o que quer que fosse, estaria no mínimo furiosamente revoltado e indignado, e falaria nesses termos – mas ele não se lembrou disso. Só soube dizer com voz sumida que havia de provar a sua inocência. Quando tiver oportunidade, reveja a gravação e depois diga-me se estou errado.E depois de vê-la, há-de perceber melhor como é penoso assistir aos mesmos olhar mortiço, engasgado discurso e linguagem gestual embaraçada de Pinto Monteiro, a redarguir aos jornalistas com débeis fórmulas legais, sustentadas apenas na sua honorabilidade (de que eu pessoalmente duvido bastante, até pela contrafeita lentidão em tomar posição no caso).Os árabes dizem que uma carta sem resposta já está respondida. Também os silêncios de Sócrates me elucidam tanto ou mais do que aquilo que ele possa dizer.Continue o bom Tecelão a terçar armas pelo homem de Vilar de Maçada. Sempre o vou informando que o engenhoso “engenheiro” já está morto e enterrado (politicamente, é claro), só que ainda não o percebeu, porque convive mal com a realidade.E para algumas pessoas a quem a verdade é inconveniente, apenas lhes ocorre recorrerem à mentira. Mas se temos direito à nossa própria opinião, felizmente não temos direito aos nossos próprios factos.Peço desculpa por ser tão extenso.

    1. Você na ânsia de atacar tudo o que cheire a Sócrates mistura os planos todos,Eu quando referi a Casa Pia,não me pronunciei sobre a culpa ou inocência de Pedroso,somente quis relevar similitudes do comportamento de algum “jornalismo”,aliás repetido com o freeport.Para si tudo faz sentido,desde que seja para desancar o seu inimigo de estimação ,vale tudo.Ainda não percebi se por via do seu ódio a Sócrates,mandou às malvas certos principios,se nunca os teve.Monárquico,presumo,deve conhecer alguma coisa do reinado de D.Pedro V,moviam-se nessa altura curiosas personagens que tnham comportamentos parecidos aos de muitos de hoje,fizeram a vida negra a Fontes Pereira de Melo,só porque ele queria tirar este país do seu secular atraso.A história,desgraçadamente neste país vai-se repetindo.

  3. A pouco e pouco vou conhecendo o prezado Tecelão. Com agrado constato que tem nele um bom hardware (é intrinsecamente são) mas infelizmente está provido de um software muito mauzinho (fracas leituras a que não antepõe o devido sentido crítico, talvez por alguns complexos “de esquerda”).É portanto apenas justo que lhe fale de mim, com a possível isenção. Com estrita verdade direi que não odeio ninguém, menos ainda pessoas que conheço de longe. Sócrates tem uma visão completamente errada da vida e da forma como a sociedade se deve organizar – porque teve uma educação e se rege por princípios muito diferentes dos meus. Não posso detestar alguém por estas razões de que ele e eu somos inocentes, até porque Sócrates talvez seja um filho dedicado e um pai extremoso, em suma pessoalmente um homem excelente, tal como foi um menino de oiro. Pelo menos assim o assevera o tio Júlio (aquele senhor muito simpático que aproveitou a entrevista em directo na televisão para comunicar ao país que tinha perdido o seu cão “Napoleão” e que dava alvíssaras a quem o encontrasse) e não tenho razões para duvidar dele, mesmo quando diz que só contactou o sobrinho para esclarecer o indecente boato que este tinha recebido luvas.Considero na mesma forma os jornalistas que arriscam a pele para nos contar o que descobriram – e se coaduna com os factos. Já tenho em pior conceito aqueles que apenas opinam, geralmente em tom subserviente – e que muitas vezes dizem coisas incongruentes com o que vemos. Leio uns e outros e tiro as minhas conclusões.Dante conta que viu no Inferno os irados eram condenados a espancarem-se mútua e eternamente. Porque desejo melhor sorte para mim, não permito que a minha alma abrigue esses sentimentos.Sorrio-me por o Tecelão cometer a proeza de querer comparar Fontes Pereira de Melo a Sócrates. Não concebo duas pessoas tão diferentes. Aquele era engenheiro mas pedia para o tratarem por “senhor Fontes”, este deixou que constasse como engenheiro na sua ficha no parlamento (que assinou mas distraidamente não lera, coitado, tão azarento) e nunca saberemos se se licenciou porque mandou encerrar a universidade e toda a documentação desapareceu, se calhar expedida para a URSS como as fichas da PIDE. Fontes insurgiu-se contra Costa Cabral por causa da “lei da rolha” e Sócrates pôs a rolha na TVI e jornal Público. Fontes renegociou com espectacular sucesso a dívida pública no Stock-Exchange de Londres e Sócrates tem feito tudo para que o estrangeiro desconfie da nossa situação financeira. Fontes era de uma calma olímpica no parlamento e Sócrates é a tristeza que se vê. Um ficou na História e o outro nem em pé de página será mencionado. E se ao tratar de off-shores, algum historiador mais minucioso insistir em mencionar o Zézito, aqui lhe deixo este saboroso naco de prosa, para que os vindouros possam formar mais justa opinião dos dotes oratórios deste primeiro-ministro, dirigindo-se ao povo que devia dirigir melhor:“Se existe, como dizem que existe – eu não conheço – um e-mail de um filho do meu tio para o Freeport, reclamando uma qualquer vantagem para si e invocando o meu nome, considero isso um abuso de confiança. E considero que essa invocação é completamente ilegítima e inadmissível”.E como o cordato Tecelão costuma encrespar-se porque não respeito o contraditório, aqui vai, pela boca do tio Júlio:“O meu filho estava aflito. A empresa de marketing e publicidade que geria – a Neurónio Criativo – não conseguia facturar. Ele deve ter visto no projecto Freeport uma oportunidade para fazer um contrato, para facturar. E achou que falando no nome do primo poderia facilitar…”A História repete-se? Fontes tinha dois irmãos e duas irmãs, sobrinhos e mais família, mas nunca estes se imiscuiram nos negócios públicos. Porque ele tinha ainda outra coisa que Sócrates não tem: carácter.

    1. O seu comentário, não a respeito, directamente, do meu escrito, mas do do nosso Tecelão, é uma maravilha! Obrigado pelo enriquecimento que constitui para o IRRITADO.

    2. Eu não diria que você é chato,mas comprido é-o de sobejo,e para quê?1-Assumir um ar sobranceiro em relação a mim,referindo-se às minhas leituras.2-Manifestar desprezo por quem não teve uma educação com os mesmos principios que os seus,só não sabemos quais foram os seus.3-Recorre á fábula do cordeiro e do lobo,se não foste tu,foi o teu pai,para embrulhada da familia.4-Distorce deliberadamente o que escrevi àcerca de F.P.Melo,o qual, não comparei a ninguem,comparei sim os reaccinários da época aos actuais, e as canalhices de que foi alvo,inclusive do próprio rei.Acresce dizer-lhe que não tenho complexos de esquerda,nem tolero falsos moralistas de direita ressabiada.

      1. Ó Tecelão, até eu já começo a simpatizar consigo, depois de ler esse “convencidito da… treta”.

  4. Preclaro Tecelão,Não se enxofre comigo, que a minha intenção é ajudar. Além disso, penso ser suficiente que haja apenas um Irritado aqui no blog :-)Mas não há como uma boa polémicazinha para tornar os nossos neurónios mais criativos (honni soit), não lhe parece?1 – As suas leituras têm melhorado bastante, há que convir. Ler os posts daqui ajuda muito à boa doutrina e os resultados já se vão notando. Não desista.2- Não conheço em profundidade os princípios do nosso primeiro-ministro. Mas não devem ser grande coisa, a julgar pelos fins que ele persegue, para já não aludir aos meios de que se serve.3 – Pareceu-me que, ao comparar os reaccionários da época aos actuais, outorgava a Sócrates as mesmas intenções que Fontes, de tirar o país do seu secular atraso. Peço desculpa se me enganei e injustamente atribuí esse nobre propósito ao “engenheiro”. Ao menos nisso, estamos de acordo.

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