Como é sabido, o João Semana era um médico dedicado aos seus doentes. Tratava-os com carinho e, sendo pobres, não cobrava.
Nos nossos dias já não há joões semana. Uma espécie extinta, ou quase. Os médicos cobram que se fartam, não vão a casa de ninguém, não são capazes de diagnosticar sem, previamente, se pague trezentos exames e oitocentas análises.
Não fiquem tristes. É que, se os médicos estão neste estado, o mesmo não se passa com os engenheiros relativos.
Oiçam estas escutas ilegais:
Trimmm…
– Tá?
– Tou. Fala o Grumecindo.
– Tas bom, pá?
– Vou andando…
– Então diz lá.
– Olha, pá, tenho aqui uns bonecos para entregar na câmara, mas a gaita é
que foram feitos pelo tipo da farmácia, sabes, o Tiroliro, que é jeitoso…
– Sim, sei, é um gajo porreiro.
– Pois é, mas não pode assinar os bonecos. A câmara não aceita… se tu não
te importasses…
– Claro que não me importo, pá. Manda-me essa coisa, que eu assino.
– Obrigadinho, pá. E… enfim… não é?
– Oh pá, não penses nisso, a gente depois conversa. Nada de facturas.
Somos amigos, não é?
– Claro, claro.
– Olha, a propósito, tens visto o Caraça, da Edibronca?
– Anda por aí, pá. Queres que lhe diga alguma coisa?
– Se o vires, diz-lhe que não se esqueça daqueles projectinhos da minha
responsabilidade…
– Não me digas que o gajo não te pagou!
– Não, pá, não é isso, eu assino mas não recebo nada! É uma coisa residual,
estás a perceber? Residual!
– Não sei o que quer dizer residual, mas percebo. Queres que eu lhe diga o
quê?
– Diz-lhe só que não se esqueça.
– Que não se esqueça de quê?
– De nada, pá. Diz-lhe que não se esqueça, e já chega. Nada de falar em
dinheiro, não é disso que se trata, ‘tás a percebejar?
– OK, chefe, não te preocupes. Olha, já agora, o macacão do Zacarias, o faz-
tudo, o da urbanização Casa ao Vento, ‘tás a topar? Aquele casado com a
filha do Fagundes, a Tânia Vanessa – boa como o milho, hi hi.
– O que é que esse palhaço quer?
– Bom, não sei ao certo, mas o gajo diz que já tratou de tudo contigo mas
que tu não ligas bóia às obras…
– Mas como é que tu queres que eu ligue às obras se estou aqui em Lisboa,
em exclusivo? Aliás, ele sabe que foi só umas assinaturas… o que é que ele
quer mais?
– Isso não sei, filho. O que sei é que o gajo é do Cadalhufense e tu do
Caganovense, estás a perceber, ganhaste o campeonato, os gajos não te
perdoam!
– Deixa lá que eu trato disso. Não te metas no assunto. Mando daqui um
gajo tratar de lhe pregar um cagaço.
– OK. Tu é que sabes.
– Esses calhordas não percebem os favores que eu lhes faço. Não me dão
valor. Eu sou o João Semana da engenharia!
– Ai és? Olha que ainda não tinha dado por isso.
– Sou sou, os meus doentes são os gajos dos projectos. É só borlas!
– Pois pois.
– Olha filho, até loguinho, está-me cá a parecer que também andas metido
com o Cadalhufense! Por este andar ainda te dou algum aperto.
– Eu? Ó Sousa, desculpa, eu nem sou de cá…
– Adeus e juizinho, é o que eu desejo.
Clic.
Como vêm, ainda há quem se preocupe com os problemas dos outros. Ainda há quem faça o bem, sabendo a quem.
6.4.10
António Borges de Carvalho

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