IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


O NOVO JOÃO SEMANA

 

Como é sabido, o João Semana era um médico dedicado aos seus doentes. Tratava-os com carinho e, sendo pobres, não cobrava.

 

Nos nossos dias já não há joões semana. Uma espécie extinta, ou quase. Os médicos cobram que se fartam, não vão a casa de ninguém, não são capazes de diagnosticar sem, previamente, se pague trezentos exames e oitocentas análises.

 

Não fiquem tristes. É que, se os médicos estão neste estado, o mesmo não se passa com os engenheiros relativos.

 

Oiçam estas escutas ilegais:

 

Trimmm…

 

– Tá?

– Tou. Fala o Grumecindo.

– Tas bom, pá?

– Vou andando…

– Então diz lá.

– Olha, pá, tenho aqui uns bonecos para entregar na câmara, mas a gaita é

   que foram feitos pelo tipo da farmácia, sabes, o Tiroliro, que é jeitoso…

– Sim, sei, é um gajo porreiro.

– Pois é, mas não pode assinar os bonecos. A câmara não aceita… se tu não

   te importasses…

– Claro que não me importo, pá. Manda-me essa coisa, que eu assino.

– Obrigadinho, pá. E… enfim… não é?

– Oh pá, não penses nisso, a gente depois conversa. Nada de facturas.

   Somos amigos, não é?

– Claro, claro.

– Olha, a propósito, tens visto o Caraça, da Edibronca?

– Anda por aí, pá. Queres que lhe diga alguma coisa?

– Se o vires, diz-lhe que não se esqueça daqueles projectinhos da minha

   responsabilidade…

– Não me digas que o gajo não te pagou!

– Não, pá, não é isso, eu assino mas não recebo nada! É uma coisa residual,

   estás a perceber? Residual!

– Não sei o que quer dizer residual, mas percebo. Queres que eu lhe diga o

   quê?

– Diz-lhe só que não se esqueça.

– Que não se esqueça de quê?

– De nada, pá. Diz-lhe que não se esqueça, e já chega. Nada de falar em

   dinheiro, não é disso que se trata, ‘tás a percebejar?

– OK, chefe, não te preocupes. Olha, já agora, o macacão do Zacarias, o faz-

   tudo, o da urbanização Casa ao Vento, ‘tás a topar? Aquele casado com a

   filha do Fagundes, a Tânia Vanessa – boa como o milho, hi hi.

– O que é que esse palhaço quer?

– Bom, não sei ao certo, mas o gajo diz que já tratou de tudo contigo mas

   que tu não ligas bóia às obras…

– Mas como é que tu queres que eu ligue às obras se estou aqui em Lisboa,

   em exclusivo? Aliás, ele sabe que foi só umas assinaturas… o que é que ele

   quer mais?

– Isso não sei, filho. O que sei é que o gajo é do Cadalhufense e tu do

   Caganovense, estás a perceber, ganhaste o campeonato, os gajos não te

    perdoam!

– Deixa lá que eu trato disso. Não te metas no assunto. Mando daqui um

    gajo tratar de lhe pregar um cagaço.

– OK. Tu é que sabes.

– Esses calhordas não percebem os favores que eu lhes faço. Não me dão

    valor. Eu sou o João Semana da engenharia!

– Ai és? Olha que ainda não tinha dado por isso.

– Sou sou, os meus doentes são os gajos dos projectos. É só borlas!

– Pois pois.

– Olha filho, até loguinho, está-me cá a parecer que também andas metido

   com o Cadalhufense! Por este andar ainda te dou algum aperto.

– Eu? Ó Sousa, desculpa, eu nem sou de cá…

– Adeus e juizinho, é o que eu desejo.

 

Clic.

 

Como vêm, ainda há quem se preocupe com os problemas dos outros. Ainda há quem faça o bem, sabendo a quem.

 

6.4.10

 

António Borges de Carvalho



Uma resposta a “O NOVO JOÃO SEMANA”

  1. Um mimo.Está, realmente, uma maravilha.Parabéns pelo seu talento!!!

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