IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


O MIJARETE

 

No tempo da ditadura, o cinco de Outubro era motivo de uma romagem à estátua do António José de Almeida, ali ao pé do Técnico. Umas meias dúzias de indefectíveis jarretas punham umas flores e diziam umas inanidades sobre as saudades que tinham da gloriosa primeira república, coisa há muito falecida, afogada nas suas guerras, desmandos e mesquinhas questões, vítima de si própria e dos sinais de tempos menos “democráticos” cujos ventos assolavam a Europa.

Outros, ou os mesmos, faziam romagens à campa do Afonso Costa, quiçá para dar um sinal de pluralismo e não ressuscitar inimizades.

Os mais maximalistas, ou os mesmos, deslocavam-se ao túmulo dos bem simbólicos heróis da primeira república, os assassinos Buíça e Costa, onde recordavam com saudade e ternura os bons tempos em que a república se tinha afirmado da mais significativa forma.

A Maçonaria, oficialmente proibida e oficiosamente protegida pela segunda república através, por exemplo, da nomeação de destacados militantes seus – como Albino dos Reis ou Mário Figueiredo, ambos presidentes da assembleia nacional – não deixava, paralela e solidariamente, de se auto-homenagear pela autoria da gloriosa implantação da república.

Saudosistas da Carbonária e do anarquismo, mais discretos porque tinham deixado de estar na moda, não deixavam, também, de se rever nos assassínios e nas bombas com que tinham cimentado o nobre ideal republicano.

A PIDE assistia a tudo, discreta e tolerante, nas esquinas da Rovisco Pais e nos portões dos cemitérios. De vez em quando, para manter viva a chama da segunda república, prendia uns tipos daqueles, geralmente tidos por inofensivos, e voltava a soltá-los tempos depois ou mandava-os em vilegiatura para as colónias. Os perigosos eram outros, os seguidores da rádio Moscovo e quejandos. De um modo geral, eram estes que iam pagando as favas ainda que, por sinal, pouco ou nada tivessem a ver com o cinco de Outubro. Antes pelo contrário, os seus “maiores” tinham sido tanto ou mais perseguidos pela primeira república como o eram pela segunda.   

 

Veio a terceira república. Sabe-se o que fizeram os tipos do PC e seus parceiros. Os outros, os do cinco de Outubro, à pala de umas concessões à esquerda comunista ou comunóide, conseguiram, por exemplo, que a Constituição deixasse de reconhecer a Nação, substituindo-a pela república (Portugal é uma Republica… art.º 1º), o que quer dizer que, antes do cinco de Outubro, Portugal nem sequer existia. Faz lembrar um compêndio de história “vendido” em África pelos cubanos que rezava que a história da humanidade tinha começado, depois de séculos de trevas, com a gloriosa revolução de Outubro – a soviética, claro.

 

O cinco de Outubro passou a feriado nacional.

Mutatis mutandis, as respectivas comemorações pouco ou nada são mais que as do tempo da ditadura. É certo que metem bandas, paradas e discursos oficiais, onde uns, como o Presidente, dizem coisas que toda a gente já sabe, outros, como o Costa, aproveitam para dar uma de esquerdista, já que ficava mal elogiarem o Buíça, a primeira guerra, ou os tempos em que se querem rever. Desta vez, em escolha que muito agradaria ao doutor Oliveira Salazar, até puseram uma prendada menina a dizer umas coisas.

O povo, esse, liga tanto às cerimónias como ligava às romagens do antigamente. Vão lá uns tipos que andavam a passar na baixa, outros que gostam de bandas e de cornetas, festões e bandeiras. Talvez uns cem. Significam tanto de “amor” à república quanto a menina do discurso representa “a juventude”.

 

Substancialmente, as comemorações do cinco de Outubro são o mijarete que sempre foram.

No fundo, a olímpica indiferença do povo a tais manifestações é a melhor maneira de comemorar tão infausta memória.

 

8.10.11

 

António Borges de Carvalho



Uma resposta a “O MIJARETE”

  1. O povo quer é um reizinho!!!

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