Durante anos e anos, fomo-nos habituando à repetida presença, na TV e nos jornais, de um senhor de estranha barba e ar feroz, que se apresentava como uma espécie de patrão de todas as farmácias.
Herdeiro da farmácia Cordeiro de Cascais, célebre por diversas razões, o senhor Cordeiro era nada mais nada menos que o mui ilustre presidente de uma coisa chamada, salvo erro, Associação Nacional de Farmácias.
Não sabe o IRRITADO como a coisa começou. Sabe que o chefe Cordeiro transformou uma aparentemente inócua associação empresarial num gigante financeiro, sediado num enorme palácio, com o Tejo aos pés e grandeza q.b.
Não sabe o IRRITADO como se transforma uma associação num banco, nem como se utiliza os dinheiros dos sócios criando uma espécie de mútua financiadora dos atrasos dos pagamentos do Estado às farmácias, mas sabe que isto conferia ao grande homem o direito de falar de alto com os governos, os bancos, os media e o povo em geral. Sabe outrossim que a mais pequena coisa que parecesse atravessar-se no caminho do senhor Cordeiro era, imediata e bombásticamente, transformada numa alta questão nacional, em risco que estavam as margens de comercialização ou coisas do género, pondo em risco a vida do conglomerado que a associação representa e, por conseguinte, dizia ele, o abastecimento de medicamentos ao povo.
Isto durou o que durou. Veio a crise, os preços dos medicamentos desceram, os bancos fecharam-se em copas. O resultado foi que o nosso feroz Cordeiro deixou de ter argumentos para falar de cátedra com este mundo e o outro.
Vai daí, rabo entre as pernas, o homem demitiu-se. Dirá, com certeza, que foram maus para ele, que lhe coarctaram a capacidade de gestão ou outras coisa do estilo, sendo inevitável, em sinal de indignado protesto, passar à peluda.
Ou seja, o homem, ou estava em posição de falar de poleiro ou, deixando estar, a coisa já não lhe interessa. Boa noite, ti Pedro! Quem vier atrás que feche a porta.
É sempre agradável, gratificante e fácil ter muito dinheiro para gerir e ter a árvore das patacas à disposição. Está-se no trono.
Quando a coisa começa a dar mais trabalho, isto é, quando a porca começa a torcer o rabo, já não dá. É uma chatice. Adeus.
7.10.11
António Borges de Carvalho

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