IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


O FIM DOS PRINCÍPIOS

Nos tempos de II República, era comum os rapazes da PIDE aparecerem nos correios a fim de abrir umas cartas a ver se havia notícias do PC, do reviralho, ou alguma propaganda de forças adversas ao poder constituído. Veio a III República, acabou a PIDE e, depois de postos na rua os “radicais” do MFA, lá se conseguiu que alguns princípios fundamentais, como o sigilo da correspondência, passassem a ser respeitados.

A coisa durou uns anos. Com o avançar das tecnologias de informação, começou a haver largas possibilidades de intrusão na vida de cada um. As pessoas e os governos, a UE e a ONU, passaram apreocupar-se com o assunto. Os governos nomeiam comissões, grupos de trabalho, especialistas, o diabo a quatro, a fim de proteger a “privacidade”. Tudo mais ou menos inútil para tal efeito, mas muito bem vindo para a propaganda.

Por outro lado, as pessoas que se queixam são as mesmas que põem nas redes as suas façanhas, se foram à praia, se o menino teve o primeiro dente, se gostam disto ou detestam aquilo. As figuras, figuronas e figurões que se acham famosos, e gostam, propagandeiam os sucessos e insucessos, sobretudo os sexuais, da sua vida. Não se percebe.

A privacidade morreu. Quem quiser saber o que escrevi em privado, o que comprei, onde fui, a quem telefonei e mais o que quiser, basta saber mexer em computadores ou contratar alguém para entrar e bufar. Não será a restauração da PIDE, mas é parecido. Com uma diferença. A PIDE era “selectiva”, isto é, violava a vidinha dos que classificava como “maus” e deixava os outros em relativa paz. Agora, viola-se a vida de toda a gente, sem precisar de ser polícia ou de pedir autorização seja a quem for.

A coisa penetra, triunfante, por toda a parte. E, se o princípio do sigilo da correspondência é letra morta, se a condenação da bufaria passou a ser selectiva como no tempo da PIDE, não é menos verdade que entraram em crise outras regras fundamentais do Estado de direito, como a que postulava que os fins não justificam os meios e a que reservava a investigação da vida das pessoas às autoridades judiciais e policiais. Não faltam apóstolos a defender o seu fim e a incensar os ladrões, segundo a “qualidade” do que roubaram. O roubo ainda não é admitido como prova, mas já faltou mais para que o seja. Os acusadores prosperam, alimentados por media sequiosos de vender.

Enfim, não faltará quem diga que estou a defender a corrupção e os corruptos, em vez de elogiar “jornalistas de investigação”, os hakers e os acusadores televisivos mascarados de comentadores. Sou uma carta fora do baralho da “modernidade”. Paciência.

 

  30.1.20



11 respostas a “O FIM DOS PRINCÍPIOS”

  1. Irritado, não passa a vida a defender a realpolitik? De certa forma, isto não é muito diferente. Num mundo ideal as leis eram adequadas, as autoridades investigavam sem olhar a quem, os tribunais julgavam de forma célere, os corruptos eram condenados e os trafulhas eram olhados de lado. No mundo real as leis são feitas por capachos dos criminosos ou pelos próprios, as autoridades investigam devagar e mal, há listas VIP, os tribunais levam eternidades, os juízes são chulecos negligentes, os corruptos passeiam impunes, os trafulhas são donos do país e do mundo. Basta ver a classe política, a banca, o futebol, as grandes empresas… tudo! Acresce que os governos já nos espiam à vontade, a começar pela sua canalha americana, que espia tudo e todos. Logo, se não forem as ‘leaks’ a revelar-nos algumas – só algumas! – verdades, quem acha que nos vale? (olhe os hackers – ‘hakers’ é em polaco)

    1. Avatar de João Gabriel Sacôto Fernandes
      João Gabriel Sacôto Fernandes

      Filipe Bastos, APOIADO, JS

    2. Apoiado

  2. A sociedade mudou. Todo o ignorante que repete o que ouve aos ignorantes pseudo-comentadores da tv, acha-se detentor da verdade. As velhas instituições que tornavam a democracia do sec.XX possível e credível, já não servem. O problema é que são aqueles que beneficiam desses sistemas políticos obsoletos que têm o poder de os mudar. O mesmo é dizer que nunca o farão.A privacidade, hoje em dia, é um conto da carochinha. Dizem os especialistas que não há computador ou telemóvel que não tenha já sido invadido por um qualquer pirata. E não estão a falar de whistlerblowers como Rui Pinto, Edward Snowden ou Julian Assange. Informático que se oriente para a piratagem entra em qualquer computador, telemóvel ou, presentemente, smart tv. Entidades oficiais e detentores de cargos políticos importantes contratam hackers que os defendam dos ataques dos ilegais.Os particulares não podem fazer isso e, de vez em quando, têm surpresas desagradáveis.Quero dizer que, nos tempos que correm, os políticos já não são os seres intelectual e moralmente superiores que atingiam a sua notoriedade pela divulgação “bouche à l’oreille” dos seus feitos. Hoje, como alguém disse, vendem-se políticos como detergentes E as negociatas que, no século passado eram algo de vergonhoso de arrasavam para sempre a carreira de um politico, hoje são um insignificante “fait divers”. Basta pensar nas relações de familiaridade e próxima amizade dos membros do governo e nos casos das golas, da compra do siresp, dos contratos com familiares, familiares de familiares, amigos, amigos de amigos, etc etcSe não forem os hackers a dar-nos conta de todas as trafulhices que hoje, impunemente, todos podem fazer, ainda vamos acabar com uma carga fiscal de 99%.

    1. Carradas de razão, Isabel. O mundo do Irritado desapareceu há uns trinta anos. Primeiro caiu o muro, depois a internet veio mudar tudo. Ainda assim, o Irritado vai além desse desfasamento, digamos, cultural e tecnológico: ele prega o direito ao sigilo, mas sabe bem que os governos – pidescos ou não – sempre abusaram dele. Mesmo há trinta, quarenta, cinquenta anos, as CIAs, MI5s e restante aparato de “segurança” de países ditos democráticos vigiavam e escutavam quem queriam. E defensores do status quo como o Irritado achavam, e acham, muito bem! Porque aí já é realpolitik, é a vida e tal. O problema é quando é a plebe a fazê-lo e a beneficiar disso; quando os segredinhos das ‘elites’ caem na rua.

      1. O meu mundo desapareceu? Talvez, mas não tanto como Filipes e Isabéis desejariam. É que, e esse era o objecto do post, há princípios que, até ver, ainda existem. Se querem legitimar quem os ofende, deveriam começar por fabricar novos princípios, o que talvez seja possível. Também é possível voltar à selva, à PIDE e a outras nobres instituições.Solução para estes problemas não sei onde estará. Mas não está, com certeza, em legitimar o ilegítimo, com a desculpa de prevenir outras ilegitimidades.

        1. Dá-lhe jeito ficar como o defensor dos princípios, e nós os patifes que querem devassar a privacidade alheia, ou, no mínimo, os ingénuos que aplaudem essa devassa e assim ajudam os seus próprios carrascos. É compreensível, mas não é muito justo: a privacidade em causa é a dos governos e dos políticos; a dos DDT; a das grandes empresas, dos clubes da bola, dos escritórios de advogados, dos offshores e mamões em geral. Os hackers e o público não querem saber dos meus segredos, dos da Isabel ou dos seus para nada. V. sabe que não é disso que falamos; apenas lhe dá jeito enquadrar assim a questão. Não é preciso novos princípios. Há é – sim – regras diferentes para nós e para os mamões. Porque são eles os donos do jogo; eles é que nos espiam e eles é que controlam tudo o que sabemos. Menos isto.

        2. Oh meu caro irritado, vamos com calma. Eu já sou entradota e não tenho gosto nenhum em verificar que o meu mundo está a mudar. Pelo contrário. O que eu faço, agora que tenho muito tempo para estudar, é tentar compreender o que se alterou. Fui, até há uns anos, muito crítica de, por exemplo, Julian Assange. E, depois, de Edward Snowden, pelas mesmas razões.Entretanto, lendo diariamente notícias de três ou quatro países, lendo ou ouvindo pessoas experientes e sabedoras, procurando sempre conhecer os argumentos de um lado e de outro, venho verificando que quem governa o mundo ( pelo menos aquele sobre o qual me informo ) anda, há décadas, a pedir sempre mais impostos e a cumprir pouco ou nada das promessas que faz. Com certeza que há excepções, mas com os media nas mãos de grupos que gerem conglomerados internacionais que facturam mais do que o que muitos países produzem, já não se pode contar com eles como contrapoder.Não só concordo como sempre afirmo que dos princípios não se abdica. Mas o que observo é que, a nível de comportamentos políticos, os princípios contam muito pouco. Por enquanto ainda se salvam em algumas relações pessoais. Mas mesmo nessas, já vejo por vezes uma espécie de laxismo inconcebível há uma ou duas décadas.Concluindo, aquilo de que me dou conta é de que, hoje em dia, o poder político dispõe de armas poderosíssimas que são perigosas para a manutenção da democracia. Sem a necessária adequação do enquadramento legal, o cidadão não tem à sua disposição os meios independentes necessários à sua defesa perante eventuais abusos do poder político. Aí, os “ruis pintos” podem dar uma ajuda e fazer andar um bocadinho mais depressa a actualização do sistema político.

          1. Cara IsabelComo eu a compreendo! Ninguém sabe como remediar estes novos problemas. Não os nego. Acho é que, como já disse, os fins não justificam (todos) os meios.Sei, por experiência própria, o que pode ser dito, ou insinuado, por bandidos. Quando tal me aconteceu, tive a sorte de me safar rapidamente, tal era o absurdo da coisa. Mas aprendi com ela.Alguns exemplos de opiniões legítimas.1. O Sócrates: tenho dito nesta “coluna”, que basta o que ele já disse de si próprio, para justificar a repugnância que por ele temos. Isto, sem recorrer a polícias, nem a tribunais que, a seu tempo (uma eternidade!), julgarão a parte criminal. 2. O mesmo com aquele desgraçado que era ministro da defesa: para termos uma opinião sobre o fulano, não é preciso esperar por julgamentos. 3. Toda a gente sabe que, na origem do sucesso da Isabel dos Santos, está o papá. Mas o que é crime, se existe, está por provar, pense-se o que se pensar. 4. Por muito que se goste do tal Rui Pinto, não há dúvida que se trata de um ladrão, ainda por cima confesso.Isto quer dizer que a opinião pública, segundo os dados presentes, tem as suas razões, mas não as tem todos. E não há dúvida que há por aí Torquemadas com fartura, bem pagos e com monumentais audições, sem precisar de provar coisa nenhuma,nem se sujeitar ao contraditório. Este, quando surge, é metido no saco dos malditos, piores que os malandros que de cujos monumentais crimes se atrevem a duvidar ou a não considerar culpados sem direito a defesa. É o facto consumado erigido em prova judicial. Os denunciantes e os inquisidores têm sempre razão! Se se vier a provar que não a tinham, ninguém se retratará… estava só a defender o interesse público!Aceito e compreendo as suas inquietações que, em certa medida, são também minhas. Não sei como será possível “regular” os novos poderes “universais” que a net arranjou. Acho é que as ultra condenatórias “morais” que por aí vicejam não são remédio para coisa nenhuma que não seja a propaganda e a facturação que proporcionam. Talvez seja por isso o meu apego aos princípios. Não nego as suas opiniões sobre os poderes fácticos que estão na mó de cima e dela abusam. Mas (ainda) acredito que há muita coisa a salvar na moral do meu tempo, quer dizer, na democracia, na liberdade, na rule of law, no capitalismo.

          2. Agradeço a sua compreensão e verifico que, afinal, a “irritada” sou eu. Não tenho a sua fé no que haja a salvar a nível de, digamos, nomenklatura. Aqui e, por razoes diversas mas que sempre têm a ver com a falta de princípios, também em países importantes desta Europa a que obedecemos. Não há democracia com mais de 50% de abstenção e com um governo que recolheu menos de 15% dos votos de todo o eleitorado. Não há contrapoderes. Os conteúdos da TV são um escândalo. Há quem entenda que, no presente, a Tv passou a primeiro poder. Porque é ela que tem a capacidade de decidir onde vão votar eleitores. Se os lideres actuais da UE conseguirem impor os seus objectivos políticos, vamos acabar como a pequena região pobre do canto ocidental da Europa. Onde as empresas ricas subcontratam o que só é competitivo com mão de obra barata. E sabe, caro Irritado, ir assistindo a este suicídio, irrita-me mesmo muito.

  3. Senti saudades do iiritado

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