A peça foi bem ensaiada. Os artistas interiorizaram os seus papéis de forma cuidada. A espaços, os maus são bons e os bons são maus, sempre com as devidas expressões, ora de indignação, acusação, ataque, ora de ternurenta empatia e de declarações do mais profundo entendimento.
Há-os que fazem agressivas diatribes, logo seguidas de elogios, há os guerreiros, os falcões, há as pombas, as rolinhas da paz. Às vezes são os mesmos, os que se queixam, os que se gabam, os que desprezam, os que amam.
O objectivo é exorcismar, esconjurar, diabolizar os inimigos, gente que não faz parte da peça, que não respeita a nova moral, que não gosta da encenação nem do ensaiador ou do dramaturgo. Gente a que não faz parte do elenco, que fala mas não é suposto ser ouvida pela assistência.
Essa, é para convencer e calar. Que fique ciente, o elenco funciona, tem razão, ciência certa, palavra final. A sua missão é entreter, fingir quesílias, deixar acordos em entrelinhas bem estudadas.
Segundo o elenco, sob a sua direcção todos os problemas estão resolvidos, as suas résteas são as herdadas da peça que foi corrida da cena. O elenco é o Estado, tudo abarca, tudo domina, tudo prevê, o dramaturgo é o chefe, quem não gostar não conta. As pessoas são meros assistentes da exibição, mero pormenor descartável. Importante é a grande organização da trupe, a que domina os espectadores, os doentes como os saudáveis, os pobres como os ricos, todos destinados à irrelevância, à insignificância, a ficar de fora. Não não fazem parte do elenco, destinam-se a ouvir, ouvir e calar, as regras estão estabelecidas, são inultrapassáveis, lei.
Não importa o que façam. O futuro está garantido, o grande contrato estabelecido, o grande chefe nomeado, aceite e admirado, os acólitos servem para dar algum dramatismo à fábula, para entreter o público, para assegurar a distracção. Lá estarão, na hora da verdade, para dar força ao chefe.
Os espectadores, esses, vão pagar mais bilhetes. E a peça continuará em cena.
25.9.19

Deixe um comentário