À boa maneira soviética, a moção do Costa foi aprovada por unanimidade. Cem por cento!
Nas outras votações, houve só 90% a favor, 130 abstenções, certamente a título de raminho de salsa. Sem votos contra, como é de timbre, sobretudo na Coreia do Norte.
Primeiros sinais de unicidade, com certeza saudados efusivamente por alguns ilustres convidados, tais o Arménio e o Carvalho da Sliva.
Mas o dado mais significativo, para já, do congresso do fantasma 44, foi a subida ao palanque máximo desse verdadeiro alter ego ou factotum do Costa, o camarada César. Os dois a mesma tendência para o sacrifício: Costa sacrificou centenas de milhões dos impostos dos alfacinhas às estúpidas alhadas em que a CML se meteu, por exemplo a feira popular e o túnel do Marquês; César sacrificou os estaleiros de Viana, os trabalhadores de Viana, o país, dezenas de milhões, à sua sede de poder e de negócio. Irmana-os o desprezo pelos outros e pelo dinheiro dos outros. O socialismo vive, sempre viveu e sempre viverá, à custa do dinheiro dos outros.
Depois, emblemático e significante, o Assis foi saneado. Talvez a única voz que, era de supor, não entraria na unanimidade estalinista, foi exemplarmente posta a ferros. A “reacção” tem que ser amordaçada antes que estrague o programa das festas. A unicidade excluiu os desalinhados.
O camarada Nóvoa, obscuro figurante da política recém saído dos cinzentos meandros da universidade e trazido à luz pela aula magna, a abarrotar de ambição, veio informar os indígenas que está “disposto a tudo”, leia-se, a ser presidente da República sem olhar a meios. Não podia ter melhor expressão para explicar o que o move, e a natureza do almejado cargo. Disposto a tudo! Ele, com a cartilha comprovadamente bem metida no bestunto, acha que ”a Pátria está à beira de um rio triste”. Esta dos rios tristes é de alta qualidade poética: o névoa, perdão, o Nóvoa, põe o assunto em termos aquícolas, certamente a pensar em lagostins de água doce.
O camarada Alegre, dada a sua fina origem, adora velharias, desta vez não móveis ou quadros mas fantasmas e assombrações. Ele o disse: “o PS não está assombrado”, “nem tem medo de fantasmas”. No caso, sabe-se quem é o fantasma, a assombração: é o 44, pois então! O que o PS precisa é de “governar à esquerda”, se calhar como o fantasma. Raio de esquerda, a que, com toda a propriedade, se poderá chamar capitaleirismo primário. Ou será que o fantasma era demasiado à direita para este ínclito representante do jacobinismo radical? Em alternativa, não sabe que ele próprio é um fantasma e quer ajudar a sacudir a concorrência.
Houve mais, muito mais. Até o nóvel membro da elite costista, conhecido pela sua especialidade em dislates e arrancadas pró-bolchevistas, o tristemente célebre Pedro N. Santos, acha que “nunca foi tão importante ser socialista”. Pudera! Não fora o socialismo, sobretudo um ressuscitador da malta do 44 como o Costa, e onde iria parar o lugarzinho?
Uma palavra sobre o reputado artista Rui Tavares. Este, que de estúpido nada tem e de malandro (para usar linguagem soarista) tem tudo, faz-se, e bem, ao ressurgente poder dos amantes do 44, bem encostados por toda a parte. Para ele, declaradamente, o governo será o PS mais ele, mascarado de “Livre”, admitindo poder vir a autorizar o PS a meter mais uns.
Outra, desta feita sobre as presidenciais. O Guterres foi abolido. O tipo até vai à missa e, que se saiba, nem maçon é! A dona Ana Gomes (e outros) encarregou-se de o pôr de lado, com o aplauso e o alívio da jacobinagem.
Enfim, o esquerdismo primitivo ao ataque na Feira das Indústrias. O PS vira a favor do vento. O 44 entra por mãos tão invejáveis quanto o Galamba, estrídulo e odiento aparatchique, o Pinto, destribuidor de preservativos, e mais uma série de recuperados das hostes do fantasma. O Costa tirou eminentes 44istas do mais evidente poleiro, mas deu-lhes outras responsabilidades (Edite Estrela, por exemplo), menos visíveis mas igualmente influentes.
O Soares fez a sua habitual entrada triunfal, freneticamente aplaudido pela maralha. O 44 voltou ao poder pendurado no Costa. Amanhem-se com esta.
Amanhã há mais, se o IRRITADO estiver de maré.
30.11.14
António Borges de Carvalho

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