Seguindo o exemplo do grande democrata Soares, essoutro grande democrata que é Vasco Lourenço convocou as forças vivas da Nação para um encontro destinado a resolver, de uma vez por todas, os problemas do povo e do país. À convocatória subjaz um pensamento de grande grande profundidade, muito acarinhado nos meios académicos: a democracia é de esquerda. É esta evidente verdade um dos tradicionais esteios que animam os espíritos mais salientes da história oficial e da educação republicana. É de estranhar que haja largos milhões de portugueses que ainda o não percebam. Doutriná-los será boa razão para a convocatória de mais este brilhante conclave, do qual se espera a formulação definitiva do núcleo básico das regras para a salvação da Pátria.
Conheci o indiscutível chefe desta organização há para aí cinquenta anos. Era ele um garboso aspirante a oficial que, por razões desconhecidas, foi internado num regimento que fervilhava de milicianos à espera de embarque para Angola. Dormimos no mesmo quarto, demo-nos mal. O homem era um profissional da guerra, eu um mero paisano mascarado de militar. Ele tinha cursos especiosos e especiais, era um tropa de elite, estava preparado para defender a unidade da Nação, ameaçada nas matas de África e nos areópagos internacionais. A malta, como é evidente, estava-se nas tintas para os discursos do insigne profissional, não sonhando que ele viria a acabar por fazer exactamente o contrário do que as suas prédicas rezavam.
À época, a política ultramarina do Estado Novo, aliás a mesma de I República, era tida pela generalidade da população como mera continuação de 500 anos de História, daí lhe vindo a legitimidade. Poucos imaginaram que a inacção política e a imprudente teimosia do governo havia de conduzir, dez anos depois, ao triste fim do que dizia defender.
Posto este apontamento histórico, hemos de convir que é legítimo mudar de ideias ao ponto de negar o que, ao tempo, se pensava com tanto pundonor e tão grande exigência. Foi o que aconteceu ao camarada aspirante a oficial. Misturou-se com os outros que abominavam os milicianos, e entrou de corpo inteiro na transformação das promessas democráticas em promessas socialistas. Até foi general, se a memória me não trai, acabando por se reformar muito cedo em coronel, como os outros. Quanto a coisa descambou, acagaçou-se e teve, honra lhe seja, papel de relevo na desbolchevização do regime. Mas ficou o socialismo obrigatório que os bolchevistas, ajudados por tantos, tinham metido, com cópia de temperos, na Constituição que ainda anda por aí.
Hoje, na qualidade de chefe da oposição castrense, dá-se ao luxo de cometer as maiores ofensas à democracia, tais a recusa de a comemorar. No seu pequenino cérebro, a democracia, não sendo socialista não é democracia. Pode o pagode votar à vontade, mas terá que votar “bem”, caso contrário os que elegeu não são legítimos. É este brilhante raciocínio que leva o comandante do pelotão a pôr os galões de salvador da “Pátria”, ou seja, do socialismo, convocando as hostes para “debater e pensar”. Pelo caminho, ajudado pela ultra servil “informação”, vai parangonando loas ao camarada Tripas e dizendo, por exemplo, que a dona Ângela é nazi. Isto, é claro, no meio de uma fraseologia que se destina a convencer as gentes da legitimidade, dele e dos seus, para fazer política fora da política, para ameaçar com a mal contida violência que a sua cabeça diz andar por aí e para justificar que o 25 de Abril lhe confere, quarenta anos depois, direitos de tutela sobre o regime.
Termino porque já estou farto. Os meus leitores que se debrucem, por exemplo, sobre a lista de “personalidades” que responderam ao apelo do Lourenço, e se deliciem com ela.
14.3.15

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