IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


NÁUFRAGOS

 

Como diria o amigo banana, nada há que não acabe. Entre tudo, por exemplo, acaba o poder.

Acabaram os egípcios, os potentados da antiguidade oriental, acabou Alexandre, acabou César, o Império Romano, o Turco, os maias, os astecas, os impérios modernos, tudo.

Quando o Imperador romano resolveu adoptar o cristianismo para unificar o império, conseguiu-o, mas deixou que os bárbaros o destruíssem ao mesmo tempo que tomavam conta da religião e, conservando-a, davam cabo do poder de quem lha tinha trazido. Dividiram-se, como sempre, a seu bel-prazer, seu sangue e ambição.

Abundam exemplos destes.

 

É fatal olharmos para o nosso mundo e pensarmos o que com ele se está a passar.

O Ocidente entregou a terceiros os seus impérios políticos. Manteve a sua superioridade mental, e moral. Está por demonstrar que uma coisa se possa manter sem a outra.

O mundo inteiro viveu e progrediu sem poder dispensar essa superioridade. O Ocidente fornecia o necessário, na ciência, na tecnologia, na agricultura, em tudo: nada era possível sem o apport do que só o Ocidente pensava e fazia.

Causticado pelas suas próprias guerras, o Ocidente tentou livrar-se delas concebendo um caderno de encargos de princípios, de normas e de sistemas políticos e económicos tendencialmente universais. Depois, expandiu tal caderno a todos os “bárbaros”. Até os mais renitentes, mal ou bem, total ou parcialmente, o foram adoptando.

Por via dos meios tecnológicos e dos princípios que o Ocidente inventou e expandiu, deu-se a globalização. A princípio acusada por esquerdismos bacocos (Saramago, por exemplo) de ser uma forma de dominação ocidental para perpetuar o “império”, a globalização produziu o efeito contrário, como qualquer ser minimamente esperto podia facilmente prever.

Outros mundos – quem pode condená-los por isso? – pegaram no saber ocidental e aplicaram-no às suas vidas e às suas economias como entenderam e na parte que mais lhes convinha.  Começaram eles próprios a entrar no processo do desenvolvimento científico e tecnológico, até então exclusivo do Ocidente.

Este, se queria manter o estilo de vida que concebera, se queria poder sustentá-lo, fronteiras abertas a tudo o que necessitava em melhores condições que o produzido “em casa”, teria que manter um avanço mental de tal ordem que continuasse a ser líder da ciência, da tecnologia, da inovação, do progresso.

Mas a velocidade dos “bárbaros” acelerou, pela simples razão que passaram, usando ideias e princípios ocidentais a utilizar de forma menos custosa o que tais ideias e princípios lhes tinham outorgado. Ao mesmo tempo que o Ocidente se entretinha a sustentar o insustentável, pela simples razão que tal sustento – produtos e dinheiro – passou a ser produzido por terceiros e a ser vendido sem barreiras.      

 

Gerou-se assim uma atmosfera de declínio. Os ocidentais estão agarrados ao que julgavam garantido sine die e, mesmo que pudessem modificar o seu modo de viver em conformidade com o que se passa – o que, pelo menos pacificamente, não é possível – é duvidoso que ainda fossem a tempo.

Há zonas do Ocidente que, mercê de melhor ou pior governação, se afundam mais devagar ou mais depressa.

Mas quando o impossível, tornado óbvio, atinge grandes potências europeias e, como se tem visto nos últimos tempos mas era há muito previsível, chega aos Estados Unidos, algo de extremamente grave se passa. Pior, se acelera.

Quando a China, por exemplo, quiser levar em linha de conta o que já toda a gente percebeu – que os EUA estão arruinados – o que acontecerá? Quando a moeda que serve de troca ao mundo inteiro cair de podre, qual a solução? E se, ao euro, como parece perfilar-se, acontecer a mesma coisa, mais que não seja por arrastamento, o que será de nós?

 

Considerando as perspectivas pessimistas – ou realistas – do IRRITADO, qual a solução? O que tem o IRRITADO a dizer para dar alguma esperança de futuro aos ocidentais, que vêm a vidinha a andar para trás?

A resposta é: nada.

Milagres não há. A força do Ocidente migra todos os dias mais um bocadinho. Resta saber que geração apanhará com as últimas consequências. Talvez seja possível “entreter” mais uns tempos. Solução, porém, não parece haver, pelo menos em paz. Os “barbaros” estão aí. O “império” vacila.

 

O IRRITADO, às vezes, põe-se a pensar nestas coisas. Acima de tudo, deseja que tudo o que aqui vai escrito não passe de um chorrilho de disparates. 

 

4.8.11

 

António Borges de Carvalho



4 respostas a “NÁUFRAGOS”

  1. Tem o Irritado muita razão, mas enfatizo que os outrora “bárbaros” só produzem mais, e mais barato, não produzem melhor. Os chineses e os indianos têm uma massa humana gigantesca, que trabalha por meia dúzia de patacos, mas até hoje não inventaram nada de jeito. Não dão cartas em nada, tanto que boa parte dos seus melhores cérebros frequentaram escolas ocidentais. Talvez isto mude no futuro, mas ainda não se vislumbra esse dia. Já a sua produção, da qual o Ocidente vive, é indissociável da semi-escravatura em que trabalham. Ora, produzir sapatos e chips por 50 euros por mês está muito bem, até querermos jantar mais do que uma malga de arroz, ou ter um carro. Foi assim na Europa de Leste, é natural e humano. Quando os custos de produção subirem – e não vejo como não hão-de subir – irão perdendo a enorme vantagem comercial que hoje detêm. Isto, é claro, supondo que o Ocidente se consegue orientar minimamente até lá. Dois exemplos pessoais: 1) Já trabalhei à distância com indianos e chineses, na minha área (TI) é algo comum. Por vezes, tinha vontade de dar cabeçadas nas paredes. Não é apenas uma diferença cultural: é uma lógica totalmente diferente. A ética profissional é atroz, os prazos são meras referências sem importância (e é um português a dizer isto), o controlo de qualidade uma anedota. É um caso em que o barato sai caro. 2) Por que é que a Dinamarca, um país tão pequeno, sem recursos por aí além (é o 36º exportador de crude, quando a Noruega é o 8º), vive tão bem? Há anos, perguntei isso a um colega dinamarquês. Respondeu-me: porque vivem do seu know-how. Pensam em coisas que funcionam, executam-nas bem ou ensinam-nas a outros, e são bem pagos por isso. Ele sabia do que falava: era cá consultor, com um belo ordenado. O Ocidente ainda não perdeu essa “edge” sobre os outros povos. Se não implodirmos devido à canalha da banca e dos “mercados” (um tema que o Irritado certamente vê de forma diversa), talvez o declínio não seja assim tão inevitável. Eu, pelo menos, gosto de pensar que não.

    1. Deus o ouça, se estiver com atenção a estas coisas.Talvez não seja do seu tempo ver os japoneses, nos anos 50, 60, 70, aos magotes, na Europa e nos EUA, a fotografar tudo o que era tecnologia e inovação. Com base nisso começaram a fabricar, por exemplo, automóveis que eram uma porcaria. Depois, passaram a ser a segunda maior economia do mundo e a produzir coisas de primeira qualidade. Como integraram grande parte dos custos ocidentais e eram só um, a coisa não fez grande diferença, antes pelo contrário. Hoje têm os mesmos problemas de que o Ocidente sofre.Imagine, daqui a uns anos, os chamdos emergentes na mesma situação… Só nos safaríamos se, por um lado, houvesse estabilidade financeira e, por outro, soubéssemos continuar à frente. Mas já não o estamos tanto quanto as suas palavras sugerem.O seu exemplo Dinamarquês é bom mas, se pensar duas vezes no modesto modo de vida dessa gente, na sua disciplina fiscal, na seu estoicismo protestante, verificará que nada têm a ver com a generalidade do nosso mundo e que que acabarão, talvez mais tarde que os demais, na mesma fossa…Quanto ao capitalismo, aos mercados e às monumentais asneiras que, pondo os seus princípios de pernas para o ar, têm sido cometidas, criticá-los será salutar, mas pôr tudo em causa…

      1. Há emergentes, e emergentes. Veja por ex. a China, neste momento o principal. Quero crer que os chineses nunca serão como os japoneses. É um mundo de diferença. Não é por acaso que o Japão, sendo 25 vezes menor, e tendo 7 vezes menos população (em 1937), invadiu e ocupou a China, e não o contrário. Aliás, que me lembre, em toda a sua história a China só conseguiu dominar o Tibete, essa potência económica e militar. Os chineses são uma cultura de formiguinhas submissas, sem arrojo nem brio. E à medida que o seu nível de vida melhora (piorar era difícil), eles próprios começam a “outsourcizar” a sua mão de obra no sudeste asiático, sobretudo no Vietname. Quando a mão de obra tem tão pouca qualidade, qualquer fonte serve. Não há comparação possível com os trabalhadores japoneses. Se somarmos a isto a sua bomba-relógio demográfica, o futuro chinês não parece assim tão brilhante. Com uma população que duplicou em 40 anos, e a política de 1 filho por casal, pensar na sustentabilidade da segurança social, quando largas dezenas de milhões se vão reformar nos próximos 10-15 anos, é no mínimo complicado. Já da Índia, não sei bem o que pensar. Parecem ter potencial para tudo, mas continua a ser um país andrajoso, cheio de absurdos. E depois temos o nosso Brasil, pleno de recursos, e novo entusiasmo. Para mim, o maior obstáculo no seu caminho é mesmo a canalha política indígena. Se é verdade que o exemplo vem de cima, aquela malta não irá longe. Ali não dava o Pinto de Sousa grandes aulas.

        1. Não contesto, até agradeço, as suas opiniões/informações.É pena, se é esse o sentido do que me diz, que tenhamos que confiar nas fraquezas dos outros…Enfim, da sua parte, um raio de esperança é uma boa notícia!

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