IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


MARAVILHAS DO SISTEMA

 

I

 

Suponha que as distintas autoridades competentes lhe vêem cobrar um imposto que já estava pago.

O que é que v. faz?

Aposto que pega no aviso, mais na prova do pagamento já feito, e vai, orgulhoso e satisfeito, à repartição de finanças.

Lê o aviso electrónico, tira uma senha jota, sobe ao segundo andar. É a primeira vez que tem, na sua mão, a prova da sua razão. Nada há que possa contradizer o recibo, passado pelas finanças, que vai exibir no focinho do funcionário.

Uma ova.

O dito, do alto da sua irrecusável autoridade, diz:

– Pois, de facto, não há dúvida, está pago. No entanto…

– No entanto, o quê?

– É que, enfim, a verdade é que o sistema não tem essa entrada…

– E então?

– Então, o melhor é pagar outra vez, como os juros de mora e a coimazinha. Mais tarde, o seu dinheiro será devolvido.

– Ai é!?

– Pois é.

– Quer dizer, se eu não pagar…

– Se não pagar, o sistema reagirá conforme está no programa. Passar-se-á à cobrança coerciva, um processozinho e tal e tal. Depois… depois passa-se à penhora.

– Mas… eu já paguei, gaita!

– Não duvido. No entanto, como sabe ou devia saber, as coisas são como são. O melhor é pagar outra vez para não se sujeitar a uma série de aborrecimentos. E, já agora, agradeço que não levante a voz nem diga gaita que é feio. Boa tarde.

Plim!

– Número três mil novecentos e quarenta e dois!

E lá vai você, a correr, tomar dois Lexotan6, a ver se o coração resiste. Esteja descansado que, com mais cinquenta cartas, duzentas reclamações, oitenta e quatro idas às finanças e umas dez caixas de Lexotan6, há-de acabar por receber o dinheiro. Sem juros. Se ainda for vivo.

 

 

II

 

Você vai às finanças, atempadamente, pagar o imposto automóvel. Espera uma horita até chegar a sua vez de se dirigir à funcionária do balcão da tesouraria.

– Boa tarde, é para pagar o imposto deste carro.

– De momento, o sistema não está a funcionar. Não posso receber o dinheiro.

– Acha que isso vai estar assim muito tempo?

– Não sei. Se quiser esperar…

Ao fim de duas horas o sistema está na mesma. Você, todo podre, vai embora.

 

Uma semana depois, a cena repete-se. Desesperado, você tenta, às boas, convencer a funcionária:

– Sabe, a senhora podia receber o dinheiro. Passava-me um recibo provisório e, quando a máquina começasse a funcionar, fazia o lançamento…

– Nem pensar. Não posso fazer tal coisa. E, mesmo que pudesse, como é que quer que eu saiba, sequer, quanto é?

– Minha senhora, bem vê, há um decreto a dizer isso… não há? É só ir ai decreto!

– O decreto está no computador. Só podemos cobrar o que o computador diz para cobrar. É assim, e acabou-se. Se quiser esperar…

Furibundo, lá vai você para casa, a caminho de mais uma guerra com a patroa, a qual, coitadinha, não tem culpa nenhuma.

 

Uns dias mais tarde, nova tentativa. Desta vez, o sistema está a funcionar! A fulana dedilha a coisa, e retira um papel da impressora.

– Xis de imposto, mais ipslon de coima.

– Coima!?

– Com certeza, o senhor está a pagar fora de prazo, não está?

– Pois, mas é a terceira vez que cá venho. Nas outras, estava no prazo, o computador é que não funcionava. Não me diga que tenho que pagar as avarias dessa coisa!

– É evidente que tem que pagar. Nem o computador aceita outra coisa!

– Bom está bem, eu pago. Já agora, diga-me a quem me posso queixar.

– Temos livro de reclamações.

– Então, faça o favor de mo dar.

– Quer mesmo?

– Claro que quero!

– Ó Fonseca, este senhor está a pedir o livro de reclamações!

– Não faço ideia onde isso esteja.

– Então quem sabe?

– Sei lá, filha. Olha, vai falar com a doutora.

A filha lá vai, entra num gabinete recôndito. Minutos depois, sai e corre pelas escadas acima.

Três quartos de hora mais tarde, aparece com o cartapácio debaixo do braço.

– O senhor ainda aqui está?

– Claro que estou. Diga lá onde é que eu escrevo.

– Um momento, vou chamar a doutora.

Mais uns vinte minutos. Finalmente, aparece a doutora, penteadíssima, produzidíssima. Com um ar do mais profundo desprezo, vira-se para si, e despeja:

– Cartão de identidade, cartão de contribuinte!

Você fica banzo.

– Então para pagar só é preciso o dinheiro e, para reclamar, é esta coisa toda?

A doutora fulmina-o com o olhar de serpente que herdou da avó, a qual era, pelo menos, bruxa no Entroncamento.

– Então?

Então, o olhar da fulana começa a fazer os seus efeitos. Cheio de medo do que lhe possa acontecer se apresentar a reclamação, você acaba por meter o rabinho entre as pernas. Que diabo, a multa nem foi cara, para que é que me vou meter em alhadas?

– Deixe lá, desisto.

– Pois é o melhor que tem a fazer!

A doutora vira costas e, ao entrar no gabinete, diz para o doutor que lá estava dentro:

– Ele há cada um!

 

 

III

 

Você herdou um andar.

Já o registou na conservatória, ao fim de dois anos de andanças.

Continua, porém, a receber a cobrança do IMI em nome do de cujus.

Resolve ir às finanças pôr as coisas no são.

Senta-se numa cadeira, depois de ter estado meia hora à coca de uma que estivesse livre. Lê o Diário de Notícias, o Público e o Correio da Manhã. De ponta a ponta. Com anúncios e tudo. Quando o atendem, entrega, confiante, a certidão da conservatória.

– É para mudar o IMI para este contribuinte.

– Qual contribuinte?

– O que aí está. O proprietário. O responsável pelo pagamento.

– O que é este papel?

– Ó minha senhora, isso é a certidão, válida, da conservatória do registo predial!

– Ai é? E o que é que eu tenho com isso? Isto aqui é uma repartição de finanças!

– Ó minha senhora, isso é um documento oficial, do Estado, a provar que o andar é meu! Portanto, o imposto também deve ser… não é?

– Nem pensar. Ora vamos lá ver… diz que herdou o imóvel, não é…

– Imóvel? Um andarzinho com um inquilino que paga cinquenta euros por mês, tem sessenta e cinco anos, não o posso pôr na rua, e pago, entre IMI, condomínio, fundo obras, esgotos e não sei mais quê, oitenta e nove euros por mês mais a renda que o pendura entrega todos os meses à administração do condomínio!

– Esses pormenores não interessam. Ora bem. Certidão de óbito.

– Certidão de óbito?

– Sim. Escritura de habilitação.

– Mas…

– O senhor parece que não está a querer perceber. Como é que quer que ponhamos o andar em seu nome se não quer trazer a respectiva documentação?

– Ó minha senhora, por amor de Deus! Eu já entreguei essa papelada toda à conservatória! Porque é que não aceita a certidão?

– O senhor parece, de facto, que quer arranjar problemas. Ou discussões estúpidas. Pela última vez lhe digo, se é que ainda não percebeu: isto aqui é as finanças, as conservatórias são as conservatórias, percebe ou quer que lhe faça um desenho?

 

Você já percebeu. O melhor é deixar o de cujus fazer umas transferências do jazigo para as finanças.

 

E volta para casa todo contente. Até ver…

 

ABC


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