O senhor engenheiro João Cravinho, criação intelectual do Secretariado Técnico da Presidência do Conselho (do Professor Marcelo Caetano) – berço de inúmeros cérebros – e membro ilustre do PS, anda numa fona por causa da sua cruzada contra a corrupção.
Tinha o homem congeminado um sistema qualquer para afrontar a coisa. Resultado, deram-lhe um pontapé pela escada acima e obrigaram-no a aceitar um lugar no BERD, em Londres, onde se encontra, coitado, às voltas com a melhor maneira de gerir o ordenadinho a que as suas investidas o condenaram.
O PS tratou-lhe as propostas, ou seja, adoçou-as, deitou o resto para o lixo, e criou mais uma “autoridade”, ou coisa que o valha, ideia de triste memória e comprovada ineficácia. Não é coisa que cause espanto seja a quem for com um mínimo de conhecimento do que é o PS e de como funciona.
Mas o engenheiro resolveu não se calar. Desatou aos tiros aos seus camaradas, dizendo coisas que fazem pensar que eles estão feitos com a corrupção. O camarada Martins respondeu, indignadíssimo, invectivando as invectivas do camarada Cravinho. Também não é coisa que espante.
O que espanta é que, tendo denunciado aos quatro ventos que o país vive mergulhado na mais horrível corrupção, o engenheiro, agora, se dê ao luxo de não dizer a que título, onde, quando, como e com quem é que tal e tão indesejável fenómeno se produziu ou produz. Pelo contrário, afirma que jamais fez “acusações genéricas”. Então, se não fez acusações genéricas, se a sindicância que orgulhosamente diz ter ordenado à JAE não deu nada, pelo menos que se saiba, acabamos por, ou não perceber a que corrupção se refere o notável engenheiro, ou por concluir que não há corrupção nenhuma, que foi tudo fogo de vista e quem tem razão é o camarada Martins e o seu pelotão.
Uma vez instado a concretizar as suas acusações, o mínimo que o engenheiro podia fazer, sem perder credibilidade, era dizer que tinha apresentado os casos de que suspeita ao Procurador da República. Não o fazendo, objectivamente, pode concluir-se que andou a disparar para o ar com o implícito fim de se tornar incómodo e de ser exportado para Londres, onde o aguardava um dourado fim de carreira.
E o resto é conversa.
António Borges de Carvalho

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