Língua de trapos é o que os ilustrérrimos senhores do Acordo Ortográfico inventaram, o que os governos aprovaram, o que os senhores deputados ratificaram.
Língua de trapos porque o português de Portugal, com o acordo, perde a sua lógica ortográfica, a razão de ser da sua ortografia, e submete o Português às regras dos que o corromperam, aliás com todo o direito a fazê-lo.
Língua que perde a dignidade de ser falada e interpretada por culturas que divergiram, para tentar, estúpida e indignamente, “unificar-se”. Jamais se unificará, os seus falantes continuarão a reflectir a forma como a pronunciam na forma como a escrevem, continuarão a usar os seus estrangeirismos de eleição, continuarão a divergir ou convergir conforme lhes apeteça e saiba melhor.
A dignidade de uma língua tem guardiões de excelência da sua pureza como os ingleses têm em Oxford e Cambridge, como uma academia ou uma universidade podiam ter em Portugal. A dignidade de uma língua universal mede-se pela liberdade que outros têm de a falar como entendam, ao mesmo tempo que os seus “donos” são livres de a preservar, na sua natureza, na sua originalidade e no seu valor de referência para os outros.
Confundi-la com as corruptelas originárias de outras latitudes é pervertê-la de forma absurda, irrazoável e, acima de tudo, estúpida.
Vem isto a propósito de se saber que o nosso governo anda atrapalhado com o cumprimento do acordo que subscreveu, com o aplauso do Brasil (o grande beneficiário da asneira) e a desconfiança dos demais países falantes.
Parece que, ao nível da administração pública, a coisa vai custar milhões. Imagine-se, os livros escolares, os dicionários, os computadores, os documentos, os formulários, tudo feito de novo para consolar as mentes tacanhas de académicos traidores e de político idiotas.
Já que os nossos políticos não parecem capazes de ter um ataque de dignidade que os faça denunciar o perverso acordo, ao menos que atentem no que está a dar, isto é, nas dificuldades financeiras. Daqui lhes rogo que adiem a coisa, por exemplo, por cinco anos. É que pode ser que, durante tal período, as coisas melhorem dentro das cabecinhas tontas que nos querem impor a infâmia.
20.7.11
António Borges de Carvalho

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