Talvez pareça mal a muita gente que o IRRITADO, meia dúzia de dias depois de ter denunciado as aleivosias do director do DN, volte à carga acerca do seu editorial de ontem, talvez a mais pífia e mais servil forma de acabar o ano com um mal disfarçado panegírico do chefe.
Pegando no despacho do PSTJ, ou em parte dele, proclama o fiel servidor do PM, em título, “Ilibado tarde demais”. Quem? Pois quem havia de ser, o chefe, Pinto de Sousa de seu nome. Ilibado de quê? Das histórias do “face oculta” (as outras histórias já não interessam?…, já morreram?). Ilibado por quem? Pelo mais alto dos juízes, que por acaso é baixote.
Considera o tal director que:
a) Postas as coisas nos termos em que o PSTJ as pôs, acabou-se, o senhor Pinto de Sousa está ilibado, e pronto;
b) O juiz de Aveiro que achou suspeitas as conversas dos amigalhaços Vara e Pinto de Sousa é uma besta (PSTJ dixit);
c) O senhor Pinto de Sousa está, evidentemente, ao abrigo de toda e qualquer suspeita;
d) Por conseguinte, trata-se do mais impoluto dos cidadãos, merecedor de todos os encómios, a quem a sociedade deve desculpas por ter arrastado o seu augusto nome na lama durante tanto tempo.
Evidentemente que estes arrazoados engagés têm, para um observador imparcial, o defeito e, para o seu autor, a qualidade de esconder o essencial. O essencial é saber o que levou o juiz de Aveiro que a dizer o que disse.
Porque, das duas, uma: ou o PSTJ tem razão ao considerar que, nas conversas entre os amigalhaços, não havia o mais recôndito sinal, a mais leve poeira, nada, mas nada, que pudesse levar à mais ínfima das suspeitas, e então o juiz de Aveiro é maluco, ou quem é maluco é o PSTJ. Maluco, ou protector do chefe, como o Marcelino.
Porque, meus senhores, o que o PSTJ diz não é que o juiz de Aveiro interpretou mal uma ou outra frase das conversas ouvidas, mas que, em tais conversas, não havia fosse o que fosse que pudesse ser interpretado de uma maneira ou de outra. Assim. Zero. Nada.
No fundo, do que se trata?
Trata-se de esconder do público o que levou a esta pessegada toda. Se o PM tivesse a consciência tranquila seria o primeiro a exigir que as partes das suas conversas que foram interpretadas em Aveiro como suspeitas viessem a lume para esclarecer as pessoas. Como tem movido céu e terra para que de nada se saiba, passa a ser objecto das suspeitas do país inteiro, dividindo-se as pessoas entre as que dizem que suspeitam, as que suspeitam mas não dizem e as que são pagas ou “engatadas” para negar as suspeitas, marcelinos e quejandos.
Trata-se de reconhecer aos portugueses o direito que têm ou deviam ter de, perante indisfarçáveis factos, poder tomar uma opinião política, não jurídica ou judicial, sobre o indivíduo que vem há anos e anos exercendo o poder, quase diria todo o poder, em Portugal.
Trata-se de haver despachos cujo teor convém ao primeiro-ministro, que são públicos, e despachos menos agradáveis ao mesmo senhor, que são secretos.
Trata-se assistirmos a uma descarada quão evidente manipulação da informação, levada a efeito, com evidente intenção política, pelos mais altos responsáveis da justiça, ao serviço do governo.
Se não é verdade, é o que parece, e o que parece…
1.1.2010
António Borges de Carvalho

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