Antes de se saber ao certo a dimensão do estrondoso êxito (garantido pelo Jerónimo!) da greve geral do PC e Cª, talvez não seja mau recordar o que é o direito à greve e o que justifica o seu exercício.
Partindo do princípio que quem trabalha por conta de outrem é objecto, por parte do outrem, das mais inacreditáveis tropelias, não tendo “armas” para se defender terá como recurso a greve, a fim de, prejudicando o outrem, o convencer a fazer aquilo a que os grevistas têm, ou se acham com direito.
Nesta ordem de ideias, e ao contrário do postulado, o que se verifica é que os trabalhadores por conta de outrem – entenda-se os representados pelo Silva e quejandos – têm, hoje em dia, as mais variadas “armas”, todas exteriores à greve: sindicatos aos pontapés, hordas de jornalistas às ordens, televisão à porta sempre que entendem, conselhos de concertação onde concertam e desconcertam à vontade, dois ou três partidos políticos por conta, etc. Não pode dizer-se que se não exprimam como entendem e quando entendem, com altifalantes aos montes e “informação” ao serviço.
Por outro lado, quem pode fazer greve são aqueles que, por uma questão de princípio, não precisariam: os que têm emprego.
Vivemos num país onde após largos anos de rebaldaria financeira, gostosamente apodada de “pouca” pelos dirigentes dos grevistas, as pessoas se dividem em duas categorias fundamentais: as que são pagas, umas trabalhando outras não fazendo nenhum, e as que o não são porque estão no desemprego (muitas) ou não querem trabalhar (algumas).
Numa primeira abordagem, ficaríamos com a ideia de que a greve seria legítima para os que a não podem fazer, problema sem saída, e menos justificável para os outros, os que podem fazê-la e a fazem porque, apesar do privilégio do trabalho, acham pouco o que recebem.
Não é assim. Os campeões da greve são os que têm emprego e, destes, os que melhores empregos têm. Os exemplos são muitos: os magníficos pilotos da TAP, coitadinhos, os maquinistas da CP, gente bem paga por pouco trabalho, os antipáticos tipos da Carris a quem até o barbeiro é pago pelo patrão, e por aí fora, num nunca acabar de enjeitados desta vida.
Distinta malta que, devidamente reforçada pelos profissionais do PC e pelo Louça mais meia dúzia, devidamente engrossada pela malta da CGTP e da UGT e acompanhada por legiões de habitués, vai conseguir, presume-se, a maior greve de todos os tempos – na doce prémonição do camarada Jerónimo.
Só não vai lá estar quem precisa, quem não tem emprego, quem tem um emprego de xaxa, quem corre o risco de ir para a rua a qualquer momento.
Uma greve contra quem precisa, contra os pobres, contra os enteados do socialismo.
Vai haver piquetes por toda a parte, a liberdade de trabalhar será letra morta, o povo ficará prisioneiro nas estações, nas paragens de autocarro, em casa, os que não quiserem alinhar serão obrigados a fazê-lo e ficarão para o resto da vida classificados como “amarelos”, votados ao ostracismno sindical e olhados de lado, o país perderá milhares de milhões, os credores ficarão (mais) desconfiados, os juros aumentarão, enfim, a greve geral vai ser a maior e mais destrutiva iniciativa dos últimos anos, um acto político contra a cidadania, os cidadãos e o país em geral.
20.11.11
António Borges de Carvalho

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