IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


FILOSOFIAS

Raramente perco tempo a falar de comentadores menores, tipo Mário Soares ou V.J. Silva, cujo recorrente “lema” é sempre o mesmo, a saber: as soluções para a crise são inventadas pelos culpados da dita, todos “neo-liberais” por definição, destinando-se a prolongar os seus privilégios à custa dos inocentes…

 

Hoje, porém, li um artigo assinado por Miguel Portas, que acho merecer alguma consideração. Quanto mais inteligente e até mais sábia é uma pessoa, mais perigosas se tornam as suas análises, se partirem de premissas inválidas ou se se servirem de instrumentos viciados.

 

Segundo ele, as violentíssimas manifestações a que temos assistido na Grécia, no Reino Unido e em Itália, são justas e bem fundadas. Ninguém, diz ele, é feliz condenado a casar cada vez mais tarde e a viver em casa dos pais ou dos avós até aos 30 ou aos 40.

Erro crasso. Não é, de forma alguma, a crise económica que provoca o fenómeno a que se refere. Trata-se de um tendência social que começou muito antes de qualquer crise, e que tem muito mais a ver com o chamado planeamento familiar e com a justa ascensão da mulher a postos a que, antes, dificilmente teria acesso. Bem ou mal, as pessoas cuidam primeiro da carreira e da experiência, só depois se metem, quando metem, nos trabalhos que uma família dá. É muito mais por isso do que por falta de meios que se vão deixando estar em casa dos pais. Nunca, como nos últimos anos, a compra de uma casa e a disponibilidade de meios que tornam mais fácil a opção de casar, estiveram tão à mão da juventude.

Foram, as decisões “sociais” de pôr meios, isenções fiscais, juros sem significado, à disposição das pessoas, o que engordou a crise. Nos EUA, onde a esquerda liberal tomou semelhantes atitudes, foi o que se sabe. Por cá, a monumental estupidez da lei do arrendamento, agravada com as alterações que o senhor Pinto de Sousa demagogicamente lhe introduziu, veio, mais uma vez por razões “sociais”, empurrar as pessoas para o endividamento e para o imobilismo, assim ajudando a aprofundar a crise. O casamento tardio nada tem a ver com o assunto, antes se poderia dizer o contrário.  

Depois, defende Miguel Portas que foi posta em andamento uma máquina infernal de transferência de rendimentos, ou seja, que o dinheiro dos nossos impostos e dos impostos dos nossos filhos foram mobilizados em socorro do sistema financeiro que nos mergulhou na crise.

Olhe para o seu país, Dr. Miguel Portas. Olhe o desperdício que por aí vai, há anos e anos, com justificações “sociais”. Olhe os problemas da nossa banca: são problemas de banditismo e de rotundo falhanço do Estado “social”, não da banca. E, se a banca tem problemas, vêm eles dos seus créditos ao Estado, gerido por megalómanos e estúpidos cheios de preocupações “sociais” a que acrescem os cidadãos por ele enganados na voragem das “vantagens” “sociais” pelo poder criadas, não da gestão bancária que seguiu o caminho que o poder lhe apontou ou se serviu dos atractivos das políticas “sociais” dos governos. Se o Estado se arruína a “salvar” o insalvável (o BPN) ou a procrastinar a questão do BPP, não é porque esteja a proteger a parte da banca arruinada por “cavalheiros de indústria”, é porque, sendo socialista, não deixa funcionar as regras do capitalismo segundo as quais os bancos em causa, nesta altura, já não eram problema para ninguém pela simples razão que já não faziam parte do mundo dos vivos.

Caro Dr. Portas, esta coisa de arranjar um bode expiatório para tudo e mais alguma coisa, sempre o mesmo, é uma limitação intelectual que, podendo ser muito “marxista”, não só não é inteligente como não leva a parte nenhuma.

Os decisores europeus não estão, como o Sr. diz, a impor aos seus povos… uma máquina infernal… que transforma a dívida privada em dívida pública… sendo o dinheiro dos nossos impostos e os impostos dos nossos filhos mobilizados em socorro do sistema financeiro que nos mergulhou na crise.

O que os decisores políticos fazem, entre nós e não só, primeiro, é gastar dinheiro em trafulhices universais como as alterações climáticas, as políticas “sociais”, os investimentos idiotas e outras práticas suicidárias, segundo, é pôr as pessoas, via impostos e taxas, a pagar essas maluquices, os “ordenados” de centenas de milhar de inúteis, as megalomanias cretinas, a propaganda desbragada.

Entretanto, a “malandragem” dos bancos deixa de ter dinheiro para meter na economia, para gerar emprego, para proporcionar benefícios sociais propriamente ditos, isto é, os que a economia poderia pagar sem se arruinar o país.

A culpa, meu caro senhor, não é do sistema financeiro, salvaguardados os casos de polícia. É das filosofias, tão “sociais” como idiotas, que levam as pessoas a ter, como necessidade fundamental, ser dono de uma casa – veja lá se os alemães têm casas!, as empresas a ter, como cliente de eleição, o Estado, as famílias a pensar que, se não “puxarem ao coco”, têm na mesma tudo o que precisam à disposição, a culpa é do socialismo que as coloca na dependência do fisco e da coisa pública, não de si próprias, é da sacrossanto imobilismo social que o “direito ao trabalho” – invenção do socialismo – metendo na cabeça de cada um que o trabalho lhe era devido como prebenda “social” e não que cada um deve o trabalho, antes de mais a si mesmo. Quando se brama, como o Sr. e seus ideológicos companheiros, contra a “precariedade”, o que se “defende” é o desemprego, os recibos verdes, os contratos a prazo, os ordenados miseráveis, etc.

A “riqueza das nações” não estará no laissez faire laissez passer, mas, de certeza certezinha, jamais esteve na entrega dos cidadãos nos braços do Estado. A riqueza das nações está em inverter o processo, isto é, em transformar o Estado numa emanação da sociedade e não esta numa emanação daquele.

 

O problema de fundo, o problema do futuro, Dr. Miguel Portas, não é saber se Bruxelas trata mal ou bem da crise, é ir filosofando como o senhor filosofa. Enquanto se reduzir o problema à velha questão dos maus e dos bons, como o senhor faz, não vamos a parte nenhuma.

 

18.12.10

 

António Borges de Carvalho



7 respostas a “FILOSOFIAS”

  1. Caro Irritado, Os jovens saem cada vez mais tarde da casa dos pais, porque não têm dinheiro para o fazer. Uma casa decente em Lisboa custa pelo menos 400-500€/mês, e viver nessa casa (luz, gás, água, internet, etc.) são mais 100€. Some-se o supermercado, transportes/carro, e restantes despesas normais, e um ordenado médio de 700-800€ é escasso. Mesmo quem ganha 1000 e tal euros, que é o que a Siemens ou a Novabase pagam a um engenheiro recém-licenciado, não vive com muita folga. Justificar o fenómeno com a ascensão profissional das mulheres, parece-me no mínimo estranho. O Irritado só saiu da casa dos seus pais, quando se casou? Parece-lhe bizarro que homens e mulheres jovens queiram ser independentes, antes de casarem? Também não entendo como transforma o ROUBO aos contribuintes para salvar bancos trafulhas, numa falha do «Estado socialista» em «deixar funcionar as regras do capitalismo». Não foram justamente as regras do sacrossanto capitalismo vigente, que criaram esta situação? E como pode ser «socialista» salvar bancos, e deixar os trafulhas que se encheram à solta, com excepções isoladas – Oliveira e Costa cá, Maddoff nos EUA, e noutros países nem isso? ———————————— Escreveu o Irritado: «esta coisa de arranjar um bode expiatório para tudo e mais alguma coisa, sempre o mesmo, é uma limitação intelectual». Sendo uma pessoa inteligente, creio que poderá esforçar-se por aplicar este axioma a si próprio. É que se alguém tivesse estado em coma durante os últimos 20 anos, e ao acordar lesse o blog do Irritado, poderia pensar que foi o comunismo que venceu, e que todos os problemas do mundo actual são alheios ao capitalismo de casino, a um paradigma baseado em criar dinheiro do nada.

    1. Não resisto a responder a este comentário. V. dá-me a honra de ir comentando o irritado, o que quer dizer que o irritado o exita, ou irrita. Obrigado.Quanto aos autos, aí vai:É sempre traiçoeiro tomar a “informação” pelo seu valor facial. Nada mais fácil – e mais improcedente – do que acusar os suspeitos do costume dos mais variados malefícios. Na minha opinião, é preciso ir um pouco mais fundo.Deixe que comece com a história dos casais. V. tem razão se se ativer aos últimos dois anos. Mas a saida tardia dps jóvens de casa dos pais é um fenómeno social presente em toda a Europa do Sul há para aí 20 anos. É certo que, em Portugal, as políticas “sociais” desta gente trataram de criar duas classes de portugueses: os que quase não pagam renda e os que pagam rendas exageradas. O mercado, quando é demasiado distorcido pela política, acaba sempre por causar problemas graves. Voltando ao fenómeno da Europa do Sul, muito antes da crise, há estudos sobre a matéria. Todos apontam, como causas a entrada da mulher em novos mercados de trabalho, o que lhes abre perspectivas de carreira pouco compatíveis com a vida de casada e, em geral, o prolongamento do período de vida dedicado à formação. Note que não estou a dizer mal de ninguém. Os fenómenos sociais tem, quase todos eles, vantagens e defeitos.Assim, reduzir as razões dos casamentos tardios à dificuldade em arranjar casa não só é errado como demasiado redutor.Estou de acordo consigo no que diz respeito ao ROUBO. Para mim, é evidente que do BPN devia ter falido, independentemente dos processos criminais que devessem ser movidos. Como faliu a Lehman Brothers, a Enron e tantos outros. A estas horas, se a lei fosse cumprida, os depositantes já tinham, até certo ponto, sido ressarcidos, os trabalhadores indemnizados, os negócios que fossem claros e sérios entregues a outrem e os ladrões, como o Madoff, estavam no xilindró. Era a solução capitalista, com certeza muito mais barata, muito mais justa, muito mais funcional, do que a adoptada, que já vai em 5,8 mil milhões. Não é?A diferença, mau caro amigo, ou o mal, está no irrealismo desta gente e num Estado de Direito que de Direito pouco tem.Quanto às “regras do sacrossanto capitalismo” terem criado crise, mais uma vez é preciso ir um pouco mais fundo. Eu não nego as culpas de muitos inventores de produtos tóxicos e outras martingalas. Mas acho que é bom não esquecer que a bolha imobiliária (onde tudo começou) foi a última consequência das políticas socias de habitação, dos exageros do wellfare state e, se têm a ver com os erros da oferta não menos têm a ver com os da procura. Haveria a acrescentar outras, mais profundas razões para os nossos males. Mas fica para outra oportunidade.

      1. As suas irritações inspiram outras minhas, de facto, e tenho usado e abusado da sua hospitalidade e paciência. Por isto, e pela sua “sportsmanship”, o meu obrigado. Quanto à saída tardia da casa dos pais, parece-me estar a misturar casais com indivíduos, causas sociais e causas económicas. Ou seja: cada vez se casa mais tarde, devido ao prolongamento dos estudos, à carreira académica/profissional da Mulher, ao individualismo da nossa época, entre outros factores. Isto acontece em praticamente todos os países do chamado 1º mundo. Mas o que tentei realçar, é que homens e mulheres querem sair da casa dos pais nas mesmas idades de sempre – 20 / 20 e poucos anos – para terem a sua independência, e têm cada vez mais dificuldade em fazê-lo. Mesmo conjugando estudos e trabalho, as rendas exageradas que mencionou são incompatíveis com a maioria dos ordenados. Conheço quem viva em Londres, que é uma cidade cara, por 800€/mês. Nada de luxuoso, mas relativamente perto do centro. Ora, eu cheguei a pagar quase isso, por uma casa normalíssima em Benfica. E em Londres, o meu ordenado seria pelo menos o dobro. Algo não está bem. Quanto ao BPN, o seu raciocínio estaria correcto, se as regras que permitiram salvar o banco trafulha, não fossem também capitalistas. Ou vamos ser ingénuos, e pensar que quem fez estas regras, estava a pensar em comunismo, e não no grande capital? Não foi o que sucedeu em todos os países, incluindo os EUA, a pátria-mor do capitalismo? As “políticas sociais de habitação”, foram na prática um convite à ganância da Banca, que nunca nos decepciona. A verdade é que a crise actual foi fabricada nos famosos “mercados”, e estes ficaram a rir-se: ainda hoje, são eles que baixam ou sobem taxas de juro, colocando a corda na garganta de contribuintes que não têm nada a ver com isso. Estranho mundo este, em que é legal – e até encorajado – fazer dinheiro do NADA, vivendo de juros criminosos, enquanto nações inteiras se afundam em crises perfeitamente escusadas.

  2. Absolutamente de acordo com o comentador anterior.

  3. Tem razão no que diz. E muito mais haveria a dizer. Esta tendência social de que fala, que é real, acentua-se ainda mais pelas características próprias dos países mediterrâneos. O mesmo não se passa nos países nórdicos nem nos EUA, onde os jovens saem de casa, tendencialmente, cedo. Tem a ver com o tipo de família, que mesmo com as mudanças que vai tendo, contínua a actuar como polo centralizador.Muito haveria a falar sobre esta questão e os problemas que ela envolve, nomedamente em relação ao planeamento familiar. Este adiar da maternidade, por exemlo, está a ter custos muito altos para muitos casais e também para o país. O que acontece, é que simplesmente, as leis da natureza não estão de acordo com esta tendência. E adiar a maternidade tem custos: em tratamentos de fertilidade infrutíferos, ou mesmo nulos. Dizia-me um amigo obstetra que a idade ideal para ter filhos contínua a mesma: entre os vinte e os trinta anos. Quantas são as jovens e, onde estão, que querem ter filhos, hoje, nestas idades?Estam-se a gerar com isto assimetrias graves na sociedade. (assunto que também dava pano para mangas).Além dos números rferentes às taxas de natalidade que decrescem de forma assustadora, com as implicaçõe inerentes.Penso que está na calha um censo. Ou muito me engano ou os dados vão ser alarmantes.

    1. Os dado não vão ser alarmantes, vão ser manipulados pela corja xuxa.

  4. Caro IrritadoOs meus desejos para si e todos os comentadores de um Bom Natal.Quanto à sua reflexão sobre o que fazer à justiça, não sei que lhe diga!http://infamias-karocha.blogspot.com/

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