Vivemos na terra dos documentos. Há documentos para tudo,estudos, estatísticas, gráficos, abaixo assinados, sei lá. Deve ser a batalha da produção de que tanto falava o saudoso Vasco Gonçalves.
No que respeita ao PS, a produção documental tem uma boa tradição, isto é, todos os documentos vão a galope para a lixeira. Ele foi o documento dos macro-economistas, onde tudo sem excepção estava errado mas que serviu para a propaganda. Lixo. Ele foi o seu filho, o programa do PS, esse nem para a propaganda serviu, só para perder as eleições. Lixo. Ele foi o programa de governo, coisa rigorosamente incumprida. Lixo.
Agora, é ainda mais engraçado. Sob a alta direcção do careca do BE e daquele tipo do PS que dizia que a dívida não era para pagar e que prometia pôr a Merkel de joelhos, reuniu uma comissão de sábios do PS e do BE a fim de dar à luz um novo documento. E deu mesmo, honrando gloriosas tradições.
No ridente dia da publicação do escrito, vieram as reacções, antes de mais das organizações envolvidas em tão importante realização. O bloco veio dizer que não se compromete com a coisa. O PS diz que não assina, o grupo parlamentar do PS afirma não sabe de nada nem tem nada com isso, o governo do PS não assume e promete esconder a coisa de instâncias externas. Três pêesses num só, qual mistério da Santíssima Trindade. Desta feita, antes de a coisa ir para o lixo, já os seus autores previnem o futuro. Compreensível cautela. Vê-se que já comprenderam alguma coisa.
É claro que o papel é um conjunto de inanidades destinado a vir a justificar tudo e o seu contrário. Só falta tirar conclusões, tais como: o Schäuble afinal é um gajo porreiro, a austeridade é progressista, a dívida não se pode pagar mas esperemos pelas eleições alemãs a ver se nos safamos, e mais isto e mais aquilo. O BE a dar uma de moderado, a fim de preparar os uns lugarzinhos no futuro governo do PS. O PS a mostrar-se bom aluno da Europa, no fundo a confessar que quem tem razão é, sempre foi, o PSD.
Se lermos todas as linhas, quais as novidades? Só uma: o saque dos dinheiros que o Banco de Portugal ainda vai tendo, a fim de segurar o défice de 2017. O resto é conversa para pacóvio ouvir.
A nossa querida crise bancária teve várias origens: por um lado, fraude, má gestão e trafulhice; por outro – casos do BCP e da Caixa – o PS. Pinto de Sousa, engenheiro Sócrates para os amigos, tratou da saúde à Caixa e deu cabo do BCP, Costa tem feito o que pode para rebentar com aquela, este vai-se safando enquanto o Costa não se meter no assunto.
O tiro agora é no Banco de Portugal, instituição que, apesar de tudo, dada a sua independência se tem mantido à tona. O “grupo de trabalho” do PS e do BE tratou de abrir a porta. O PS não assinou mas já mandou o aparatchik Galamba explicar ao povo que o Banco de Portugal é independente mas pouco e que o Centeno tem todo o direito a ir lá sacar o que for preciso para poder deitar foguetes acerca do défice. A “operação” vai sendo preparada na opinião pública, fazendo o seu caminho, até que haja muito quem ache bem. Pobre Banco de Portugal!
As esquerdoidas constroem o seu futuro lá dentro. Cá por fora, continuarão na calma, a dizer as suas irresponsáveis bojardas. O PC reserva-se: diz que a migalha não é papo-seco: mas come-a.
A oposição, leia-se, o PSD, vai chamando as hostes à razão, insistindo em não denunciar que, no Portugal dos nossos dias, o poder é o poder, tendencialmente total, e que quem não estiver com o poder leva. Não é esta a filosofia triunfante?
29.4.17

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