Como foi, à altura, sublinhado por inúmeros comentadores, a criação da empresa pública Estradas de Portugal e a subsequente celebração de um contrato de concessão entre ela e o Estado constituíram uma descarada desorçamentação de despesas, um truque, uma espécie de receita extraordinária, um disfarce do défice real com cosméticos de qualidade duvidosa.
Agora, sua excelência um obscuro secretário de estado vem justificar, nos jornais, as contas deficitárias da empresa. Não do Estado, como é de ver. Um défice que, no dizer socrélfio do citado senhor, é coisa temporária, vai desaparecer a prazo. É que, diz o “governante”, daqui a 75 anos (prazo da "concessão") “o balanço global vai ser positivo”.
Muito bem. Ficamos todos descansadíssimos. Os nossos tetranetos vão fartar-se de ganhar dinheiro com o negócio.
Uma olhada à estrutura das despesas da EP:
grosso modo, de um total de 804,9 milhões de euros, 83% são para “encargos com as SCUTS”, 10% para o “funcionamento”, e o restante para “outras despesas com parcerias público privadas”. É desconhecida a verba destinada, se é que há alguma, à manutenção da rede de estradas existente.
Este extraordinário quadro
(números fornecidos por sua excelência)
revela-nos quanto nos custa
(ou não custa, porque, como não está no orçamento do Estado, o senhor Pinto de Sousa deve achar, e com razão, que os parvalhões dos portugueses enfiam barretes destes)
a tomada da decisão “social”, ou socialista, ou socretina, de não haver portagens nas SCUTS.
É certo, ou quase, que as receitas das portagens não pagariam a totalidade das despesas, tal como as que a outras parcerias dizem respeito. Mas muitos milhões deixariam, como é óbvio, de sair dos nossos bolsos.
Somados os 667 milhões que, só em 2009, as SCUTS irão custar, aos milhares de milhões que custarão nos anos seguintes, e aos outros milhares de milhões (quantos?) que o tresloucado plano de obras públicas do senhor Pinto de Sousa custará também, teremos uma fulgurante imagem do futuro que nos espera.
Os culpados deste mar de asneiras já estarão a bom recato quando a parte mais violenta da hecatombe que se avizinha nos cair em cima da cabeça. Nessa altura dirão que a culpa é de quem lhes suceder. Entretanto, teimam na asneira, na irresponsabilidade e na demagogia.
10.11.08
António Borges de Carvalho

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