Olhem para isto:
Escola Secundária de Camões
Prova de Matemática A 16.07.09
Código 635 2ª Fase
Início da Prova 9h 00
Duração 150 minutos
Final 11h 30
Tolerância 30 minutos
Final 12h
Trata-se da transcrição de uma informação, provavelmente produzida por um professor habilitado, escrita no quadro de uma sala do Liceu Camões, em Lisboa, antes de um exame, e fotografada por um jornal qualquer.
Note-se alguns detalhes, que podem não ser importantes mas que falam alto sobre o estado das coisas.
a) Mudou-se o nome de “Liceu” para “Escola Secundária”, tendo o cuidado de lá deixar a preposição. Um erro tradicional que, já agora, podia ter sido emendado. Trata-se, como é evidente, de uma alteração completamente inútil, uma vez que “liceu” já era escola secundária desde os tempos do saudoso Manuel da Silva Passos. Não faz mal a ninguém, dir-se-á. Com certeza. E faz bem ao tipo que concebeu a coisa para mostrar serviço. Aprovado.
b) O exame não é a prova de matemática do ano tal do curso tal, mas sim a prova de matemática “Código 635 2ª Fase”, a fazer lembrar um livreco do grande intelectual socialista que dá pelo nome de José Rodrigues do Santos. Se tal fosse, era de aceitar. Mas não é. Calcule-se a estupefacção do papá quando o menino lhe disser que vai fazer exame de código 635 2ª fase. Será a prova prática do exame de condução? Mas tu não tens idade para tirar a carta, filho! Onde é que andas metido? É evidente que código 635 2ª fase quererá dizer o que quiser, informando acerca de tudo menos do que, afinal, se trata. Mais um triunfo dos intelectuais da “educação”, para “justificar” o ordenadinho.
c) O tempo para a feitura da prova é uma maravilha. Note-se, antes de mais, o critério do/da professor/a que escreveu o aviso, ou de quem lhe deu instruções para o escrever. As horas têm direito a um agá, mais nada. No início, os minutos nem a um eme têm direito. Na segunda, não há horas, só minutos, desta vez com direito ao nome por extenso. A seguir ao primeiro Final lá encontramos as horas com um pobre agá e os minutos sem nada, coitadinhos. Na linha seguinte, os minutos têm de novo honras de extenso. A fechar este bouquet, lá vem mais uma novidade – as horas com o seu agázinho e os minutos completamente ausentes, ao contrário do que sucedia no princípio da coisa. Repare-se ainda no extremoso cuidado com que o docente produtor do aviso trata os alunos: prevendo que estes não saibam que cento e cinquenta minutos são duas horas e meia, a pessoa esclarece: nove horas mais cento e cinquenta minutos igual a onze e meia. Uma ternura.
d) Last but not least, numa prova de duas horas e meia, a tolerância é de meia hora. 20% do tempo! Notável amor pelos alunos, que ficam a saber que o exame, sendo de duas horas e meia, pode ser feito em três horas. A tolerância não é para assinar as folhas e guardar o material, é para fazer o exame, tal como no resto do tempo. É de pôr a dúvida metafísica: o exame é de duas horas e meia ou de três horas? A resposta é do tipo das do Marcelo Rebelo de Sousa sobre o aborto: é evidente que o exame é de duas horas e meia, podendo ser de três, isto é, quem levar três horas é como se levasse duas e meia, o que, como é evidente, não quer dizer que o exame é de três horas, mas sim que, em certas circunstâncias, duas horas e meia, não sendo, como é óbvio, iguais a três, se tornam iguais três, ou seja, não sendo três, são três. É por isso que, como diz o aviso, há dois “finais” o das onze e meia e o do meio-dia. Ou seja, o final é final sem prejuízo de não ser o final, uma vez que o segundo final é que é o final. Isto é, há um final e outro final só que, sendo a mesma coisa, são diferentes entre si, não podendo, como é óbvio, ser iguais a si próprios.
Estão a perceber?
19.7.08
António Borges de Carvalho

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