IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


EM DEFESA DO DR. CONSTÂNCIO

Aqui há tempos, um alto executivo de uma multinacional disse-me cobras e lagartos do jornalismo económico em Portugal. Bom, não vou repetir o que o homem me disse porque, por um lado, não sou competente na matéria e porque, por outro, me arriscaria às mais rebuscadas represálias.

Incompetência não é cegueira. E cegueira seria ter lido o “Expresso” e não expressar a maior das surpresas com a “política económica” do dito.

Tendo constado que o Dr. Cadilhe não conseguiria ser eleito, o distinto semanário trata de desancar o homem, de tecer as maiores loas ao Dr. Constâncio, de arranjar todas as desculpas para as “distracções” do Banco de Portugal, enfim, de alinhar quanto mais depressa melhor com os putativos vencedores, esperando os investidores, na opinião do “Expresso”, a eleição dos bons para “para regressar ao banco”.

Vai o periódico tão longe quanto imaginar se possa. Um enorme artigo relata, com o devido detalhe, os investimentos portugueses em offshores. Somam estes, segundo o “Expresso”, nada menos que 178 milhões de euros, só em 2007. Tudo devidamente controlado pelo Banco de Portugal. Segundo o director do suplemento de economia, o BCP terá criado e financiado 17 offshores, aplicando nisso “mais de mil milhões de euros”, dos quais terá perdido duzentos.

Ora bem. Como é possível que o Banco de Portugal, que sabe e controla os 178 milhões das offshores em 2007, não tenha dado, anos antes, pelos “mais de mil milhões” aplicados pelo BCP? Como é que se disfarça mais de mil milhões de euros, mesmo na contabilidade de um banco? Como é que o BdP, que controla, diariamente, todas as financeiras, não deu por isso?

Sou eu que sou cego, ou é o “Expresso” que não quer ver?

A cereja em cima do bolo é um artigo do director do caderno de economia, modestamente intitulado “Greenspan defende Victor Constâncio”. Não contente com a restante artigalhada, o homem foi lembrar-se desta. É claro que o senhor Greenspan, se sabe que Portugal existe, não faz, de certeza certezinha, a mais remota sombra de ideia de quem será o tal Constâncio. Por isso que, puxadas pelo título, as pessoas vão ler o artigo à procura de tão alto apoio ao enfraquecido Governador.

O Governador tem sido objecto de acusações? “É injustíssimo”, diz o articulista. E mais. Acha normalíssimo que o BdP não tenha dado por nada. Há 14 milhões de operações de crédito no país, diz o homem, sem especificar em que espaço de tempo. Como é que os inspectores podem “andar atrás de cada uma”? E esta? Os inspectores deixam passar “mais de mil milhões de euros” porque estão muito ocupados? Os auditores não sabiam das offshores, coitadinhos, os directores também não, coitadinhos. Assim.

 

Se eu quiser mandar 500 euros para uma continha que tenho algures sou obrigado a declarar porquê e para quê, a fim de que o BdP faça as suas contas e verifique se eu não sou negociante de cocaína, sequestrador de criancinhas ou se não ando para aí no lenocínio. Mas, se se tratar do BCP, o Banco de Portugal deixa passar “mais de mil milhões” e não dá por nada? Ou os “mais de mil milhões” não saíram de Portugal? O senhor Constâncio anda a brincar, ou quê?

 

Afinal, o senhor Greenspan nunca ouviu falar dele. O que disse foi que as fraudes e os desfalques normalmente são objecto de denúncia. E como, no caso do BCP, houve uma denúncia, conclui o “Expresso” que o senhor Greenspan veio à liça defender o senhor Constâncio. Admirável conclusão.

 

Sou levado a crer que o meu amigo, executivo de uma enorme multinacional, tinha toda a razão.

 

António Borges de Carvalho


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