Ontem, vista a manchete do jornal privado chamado “Público” (PS 36%, PSD 31%), e olhados os “casos” das eleições autárquicas, o IRRITADO produziu um post a que deu o nome de “eleiçõesecas”.
À noite, o inigualável storyteller Rodrigues dos Santos anunciava a hecatombe: PS 36%, PSD 16%.
Resultado: o IRRITADO foi a correr ao Sapo e apagou o post.
Hoje, postas as coisas no sítio e contabilizadas as coligações, verifica-se que o “Público” tinha razão. O Rodrigues dos Santos, para quem ainda não saiba, é um aldrabão. Pior, um aldrabão do PS. O IRRITADO, se calhar, não devia ter apagado o post.
Há que perguntar onde está o “vendaval”, a hecatombe, a vitória esmagadora, a derrota histórica, o land sliding eleitoral. O PS ganhou, larga vitória, mas não mais do que seria de esperar. O PSD perdeu, o que é mais que natural, dados os apertos em que está metido no governo e as asneiras que cometeu no chamado casting.
No fundo, grande parte da “análise” do IRRITADO estava certa. Aí vai o que foi recuperado, menos umas coisas, mais umas coisas:
A grande surpresa das eleições autárquicas foi não haver surpresa nenhuma: desceu quem se previa que descesse, subiu quem era óbvio que subiria.
Os media, sublinham a “monumental” derrota do PSD, ao nível nacional. Não se percebe como é que uma difereça de cem mil votos, ou 5%, é monumental!
Não se poderá dizer o mesmo em relação às eleições propriamente ditas, por muito que os pensadores de serviço insistam no “significado nacional”. Nas eleições propriamente ditas, o PSD levou muita pancada, boa parte dela porque escolheu mal os candidatos. Os Meseses, os Pintos, os tipos como aquele de Gaia que só diz alarvidades e cujo nome não se decora, e tantos outros.
Por outras palavras, o PSD foi penalizado localmente, mas o governo, nacionalmente, nem por isso, ainda que os media de serviço garantam o contrário.
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Há anos, quando o Guterres, finalmente consciente do confesso “pântano” em que nos meteu, resolveu dar à sola em situação semelhante, ai credo que foi uma derrota “nacional”. Mentira. O que o homem sentiu foi que não aguentava mais as depesas em que se tinha metido. Lá veio, então, a dona Manuela, que fez os possíveis por começar a endireitar a desgraça que a grande “obra social” do seu antecessor tinha causado. Durou pouco. Veio o Santana, cujo governo era suficientemente bom para excitar inquietações do Sampaio, que via sua querida esquerda em maus lençóis. Zumba, vai disto, golpe de Estado, ora essa! Santana nem para arrumar os papéis teve tempo. E lá fomos cair nas mãos do Pinto de Sousa, que, magistralmente, exponenciou os desmandos financeiros do Guterres e nos meteu no maior buraco de que há memória.
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Voltando ao que nos trás, uma palavrinha sobre a vitória do Costa. Aí sim, há um significado “nacional”. Os eleitores, cheios de medo de vir a ser governados por Seguro, o oco, trataram de projectar o Costa para mais altos voos. Deram-lhe o trampolim de que precisa para vir, mais cedo ou mais tarde, a comer as papas na cabeça do camarada. Que importa o estado miserável dos passeios da cidade, o lixo por todos os cantos, os jardins porquíssimos? Nada. Que imposta a pessegadada Rotunda, as obras, anunciadas como “imediatas” há oito anos, do jardim do Campo Grande e da respectiva piscina? Nada. Que importa as miseráveis obras da Rua do Ouro, com os passeios aos altos e baixos, escorregadios, sujos, tortos, polidos pelo uso? Nada. Que importa o pidesco processo do Parque Mayer/Feira Popular, dois horríveis pardieiros a envergonhar a cidade, há anos e anos, por acção da câmara? Nada. Que importa que a câmara esteja cada vez pior em matéria de burocracia e de parasitismo? Nada. Que importa que o Bairro Alto seja um mar da bêbados, de pancadaria, um local invivível para quem lá mora?
Sua Excelência lá está, imperial, no palácio da Viúva Lamego, no Intendente, rodeado de pêgas e pedrados, a dar largas à sua demagogia populista.
E aqui está a segunda “razão” para votar Costa. A promoção da “cultura”, do entretenimento, da bagunça, que assim é que a populaça é feliz, assim é que a populaça vota! Quarenta mil lugares disponíveis em discotecas, discotascas e similares. Festas por todo o lado, a propósito e a despropósito. Tudo pago pelos IMIs, IMTs & Cª, pois então. Ludis et circencis, como dizia o camarada Nero. Movida! Qual crise qual carapuça, qual cidade qual carapuça. Arte urbana, prédios votados ao abandono pela burocracia, como os da Fontes Pereira de Melo, cheios de repugnantes pinturas, uma sujeira, uma glória camarária. Dá votos, diz-se.
Sublinhe-se agora a mais engraçada vitória: a do Isaltino. Das agruras da prisão, o homem conseguiu, por interposto avatar, ganhar a câmara de Oeiras. Faz lembrar o velho Ademar, cuja divisa era “rouba mas faz”. O que Isaltino fez não tem paralelo, e povo está-se marimbando para que tivesse uns cobres na Suiça, para que se esquecesse dos impostos, para que tivesse um sobrinho taxista na Patagónia. O povo até gosta. Só lamenta não ter um sobrinho daqueles. Se o sucessor promete ser igual ao Isaltino, vamos a isso!
No outro extremo, sem fugir aos impostos, sem contas na Suiça, sem sobrinhos, há outro que também ganhou as eleições via avatar de serviço: Rui Rio, no Porto. Parabéns: a boa gestão compensou. Merece referência.
Na Madeira, o Jardim começou a levar na cabeça. Uma inacreditável coligação, que não tardará a converter-se num saco de gatos, sacou-lhe o Funchal. Não saber sair a tempo é o que dá.
Assinale-se com tristeza os resultados do PC que, tendo os votos do costume mais uns pós, ganhou umas câmaras. Gostosamente, refira-se a memorável tunda que o BE levou.
O chefe do CDS arranjou maneira de sublinhar uma retumbante vitória, mas o IRRITADO não percebeu onde ela estava ou onde o ilustre perturbador queria chegar.
Finalmente, a abstenção – uma forma de votar como outra qualquer – foi até aos 47%, diz-se. Não é analisável, dado o estado comatoso em que estão os cadernos eleitorais. Se há mais eleitores que habitantes, como é possível contá-la? Não é um escândalo, uma desinformação, um crime mediático, andar a proclamar que a abstenção foi xis, quando ninguém pode saber se foi xis, ipslon ou zê?
1.10.13
António Borges de Carvalho

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