Já não sei o que pensar sobre o drama da dona Isabel. Nem sobre o nosso.
Vejamos:
O regime angolano foi, pela comunidade internacional, reconhecido como legítimo;
É sabido que, em África, quem manda é “o mais velho”, independentemente da forma como subiu ao poder ou de como o exerce. O poder é dele. Há disso inúmeros exemplos. O “mais velho” é proprietário de tudo, de uma forma que faria inveja a qualquer rei absoluto do nosso (dos europeus) ancien regime;
Num regime de origem e tradição soviética, como o de Angola, a autoridade do “mais velho” é reforçada para além do imaginável;
O senhor Santos escolheu os seus áulicos, os seus amigos, os seus apoiantes, os seus polícias, os seus juizes, os seus jornalistas, os seus militares, os seus carrascos. Como é evidente e natural, pôs à cabeça a sua família de sangue. Esta nomenclatura, como é próprio de todas as nomenclaturas, foi contemplada com toda a casta de privilégios (exactamente como na Rússia, antes, durante e depois da URSS): propriedades, poder económico, prestígio social, etc.;
O mundo inteiro, incluindo as democracias ocidentais, aceitou estes factos, negociou com a nomenclatura, fez os negócios que o “mais velho” permitia, desde que neles a nomenclatura estivesse representada. Outra coisa não seria de esperar. Qual era a alternativa? Cortar relações? Lançar sanções e represálias? Declarar guerra? Esta reakpolitik pode ter ido longe demais. Talvez. Mas era inevitável;
Os membros da nomenclatura, de um modo geral, mais não fazem utilizar os seus privilégios. Alguns vão mais longe. Muito mais longe. É o caso da dona Isabel que, em relação aos seus pares, tem a vantagem do poder de iniciativa, da imaginação empresarial e financeira e, naturalmente, da falha de escrúpulos que é própria da classe;
O “mais velho” retirou-se. Rei morto, rei posto. O “mais velho” é novo. Está a dar cabo da nomenclatura precedente e a nomear a sua, reconheça-se que com diferentes argumentos, mas é cedo para pensar que, substancialmente, não volte tudo à mesma com outras caras. É a limpeza, à velha moda soviética, o que até em Portugal aconteceu no tempo do PREC.
É claro que o muito dinheiro a circular sem pública sanção ou regulação porporcionou à dona Isabel oportunidades de ouro. Muita gente alinhou, gente boa, gente má, gente assim assim. Gente.
Mas, viradas as caldeirinhas, o que era bom passou a mau, o que era legítimo passou a trafulha, o que era “iniciativa” passou a crime;
Grande oportunidade. Os lobos sairam da toca, os que já rosnavam, os que nunca rosnaram. É fartar vilanagem. Os ratos, esses, abandonam, é a tradição.
Entre lobos, bufos, trafulhas e fugitivos, se me perguntarem qual escolho, direi que nem o diabo quereria escolher.
27.1.19

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