– Que chatice, nunca mais saímos da ressaca daquela coisa do Porto!
– Pois, os tipos não se calam, pá. Até o Marcelo anda aos tiros! Aqui anda marosca da direita, pelo menos é o que diz o Pedro.
– Não, pá. O Pedro há de andar até ao fim com aquela coisa da TAP às costas, mete os pés pelas mãos, só diz asneiras, mas não entra na trampa do covide. Quanto mais se enterrar melhor. O que o gajo quer é galarim, temos que dar cabo dele antes que dê cabo de nós, feito com a Catarina.
– Então de quem é a marosca?
– De todos, menos nossa. A começar pelos cientistas.
– Quais cientistas qual carapuça, pá, esses são outros que tais, cada cabeça sua sentença, e nós é que ficamos à pega. Ora diz-me lá, sabes se devemos pôr a máscara ou não, quando, como, onde? Sabes? Sabes com quantas pessoas podes almoçar, sabes se é preciso desinfectar as cadeiras para o vírus não te entrar pelo cu acima, ou se o vírus não gosta de cus. Não sabes, pois não?
– Então não viste o quadro da doutora Raquel Duarte, que os jornais publicaram?
– Ver, vi, mas não percebi patavina. Nem eu nem ninguém.
– Não exageres, pá. Um tipo que não seja completamente estúpido, ao fim de uma exegese aturada, coisa de duas horas, acaba por perceber.
– Bom, falemos de coisas sérias. Como é que vamos justificar ter posto trinta mil bifes à porrada no Porto, e não deixemos entrar ninguém no Estádio Nacional? Quem é que tomou a decisão?
– Eu não fui!
– Quem foi, ninguém sabe ao certo. Ainda não digerimos a história do Porto e já nos estão a arranjar outra, xiça!
– É preciso ver as coisas como elas são. Já imaginaste o que seria se, depois da porcaria do Sporting em Lisboa, não autorizássemos a bagunça no Porto? Vinha o gajo do Bulhão chatear meio mundo. Não chega o Merdina andar para aí a sacudir a água do capote na história do Sporting? E o Santo António, gaita!?
– Essa não sei. Só sei que a culpa não é minha, hihi, como se diz em África.
– Cuidado, que ainda te acusam de racismo.
– Bom vamos a coisas concretas. Há uma coisa que é fácil, a Temido concorda e o barbaças da educação também. É mandar os miúdos para casa assim que houver suspeitas. Nisto de disciplina e obediência, de pequenino é que se torce o pepino. Havendo um que, de perfeita saúde, dê positivo, vão cinquenta putos para casa duas semanas, e não há quem proteste, os professores adoram e a fenprof também.
– Isso é que é falar!
– E o Cabrita, pá, o que é que fazemos com esse tipo?
– Nada. O gajo é bestial, excelente! Enquanto ele leva na touca, nós ficamos a salvo. É preciso ter espantalhos para pôr a passarada com dono.
– Lá isso é verdade. Mas estamos a afastar-nos do essencial, que é a política do covide.
– Isso também não tem grande importância. Se correr mal, a culpa é dos chamados cientistas. Se correr bem, foi obra nossa. Tás a ver? É o costume, não há problema.
– E o Marcelo?
– O Marcelo é o menos. Se levantar muito cabelo, arranjamos uma Catarina qualquer que lhe chame fascista, xenófobo, racista, homofóbico, bully, ou outras merdas da cartilha. Até é capaz de lhe arranjar algum caso de assédio, coisa de há cinquenta anos, ou assim. A imprensa gosta, o PC e o BE acham bem, e mantem-se a estabilidade, percebes? Quem se mete com o PS lixa-se, como inspiradamente um dia declaraste.
– E o Ventura?
– O Ventura é óptimo. Deixemo-lo por conta da Ana Gomes e doutros que tais, que tratam da propaganda. O gajo sobe nas sondagens e quem paga a é o idiota do Rio.
– Tens razão, António, aliás como sempre. Genial. Voltemos ao covide.
– Não vale a pena, pá. Isto passa, e nós, os inocentes, ganhamos votos. Não vês que o chamado povo já está completamente aparvalhado? Haja o que houver, estamos por cima, somos o poder, os maiores, os mais que tudo das massas.
– Mas…
– Mas nada. Na pior das hipóteses, quando vier a bancarrota, arranja-se um Passos Coelho qualquer para apanhar com ela no focinho, como no tempo do camarada Sócrates. Entretanto, nós já arranjámos um taxão qualquer fora daqui, e pronto.
– Isso é que é falar. Estou contigo, como sempre. Beijinhos.
3.5.21

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