Quando Passos Coelho, aqui há uns meses, disse que não iria falar do passado, entendendo-se por passado o consulado do senhor Pinto de Sousa, é de presumir que estava a ser sincero.
Mas afirmava o impossível: não se pode justificar o que se passa hoje sem recorrer ao que ontem se passou. Não se pode apertar o cinto da malta como se aperta sem dizer porquê.
O porquê está em Paris Está também, estrebuchante e indignado, na tropa fandanga que o estudante rico e emigrado deixou nas bancadas do Parlamento: figuras tão ilustres como o inacreditável Lelo, como o do beiço à banda, como o ladrão dos gravadores e tantos, tantos outros.
Por ter dito que faria o impossível, Passos Coelho é agora atacado com a alegação de estar a perseguir o Pinto de Sousa.
Na estranha óptica da tropa fandanga, o senhor Pinto de Sousa, por definição, não pode ser objecto de ataques. E, se tais ataques tiverem boa base – a verdade – então ainda menos!
A verdade, como é evidente, não faz, como nunca fez, parte da deontologia política da tropa fandanga. Para a tropa fandanga, a verdade é uma chatice, um mau hábito que põe em causa a democracia, pelo menos no esclarecido entendimento do pintodesousismo, alta expressão do socialismo democrático.
Há muitas décadas, os soviéticos, sob a douta direcção do camarada Brejnev, decidiram des-stalinazar a União. Era insustentável, mesmo para uma sociedade privada de qualquer sombra de direitos, continuar a honrar, como se de um semi-deus se tratasse, um ditador carniceiro, talvez, com Hitler, o mais sinistro, o mais horrível de todos os monstros que a história e a ideologia geraram. Na Rússia e adjacentes, as coisas continuariam mais ou menos na mesma. Mas até aquela gente do PCUS foi capaz de pôr de lado o culto de Estaline.
Por cá, é o contrário. Mutatis mutandis, o nosso impensável partido socialista não consegue libertar-se da sombra do horrível demagogo que o dominou e que arruinou a Nação e o seu povo. Menos humildes que o camarada Brejnev e seus sequazes, os socialistas nacionais insistem em não querer reconhecer os males que o seu ex-líder causou. O Seguro, coitado do Seguro, não consegue, por muito que lá no fundo queira, reconhecer publicamente a desgraça que o seu partido, sob o comando do Pinto de Sousa, espalhou aos sete ventos.
É pena. A humildade, a contrição, a des-socratização do PS e do país seriam um sinal de dignidade democrática. Mas esta gente parece não saber, nem o que é dignidade, nem o que é democracia.
31.3.12
António Borges de Carvalho

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