IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


DA MORAL DOS DITADORES

 

Já tenho escrito isto várias vezes, mas não será mau repeti-lo, a ver se alguém lê com olhos de ler: o mais espantoso do referendo do Syriza é ter sido aceite por aí como se correspondesse a alguma verdade.

Não é possível que uma enorme quantidade de sondagens, incluindo as feitas no dia da votação, aponte, sem excepção, para um empate técnico, e que o resutado seja tão alargado como foi, para um dos lados. Nunca, em parte alguma, um referendo foi organizado tão depressa nem tão em cima da hora. Bastava isto para desconfiar. E não será preciso ser muito imaginativo para pensar que a golpada estava preparada há muito, para ser vibrada quando mais conviesse. Os insultos, as ameaças, as carroceiradas, não chegavam, isto é, não surtiam efeito. Daí que fosse preciso uma espécie de arrochada de surpreza, bem preparada, com uma contagem que não deixasse lugar a dúvidas. Coisa de profissionais.
Estou convencido que “a Europa” come disto para não criar mais problemas. Denunciar a chapelada do Syriza e da extrema-direita podia ser pior que fingir que se aceita o resultado.

Outra questão, que o futuro talvez venha a esclarecer, é a de saber se um governo, sem denunciar tratados, sem pôr em causa nenhum nenhum pacto ou compromisso nacional formalmente subscrito, ratificado e aceite, tem legitimidade para fazer o que o Syriza tem feito. Não é, mas assim acontece.

Será legítimo aceitar pertencer a uma organização onde vigora (mal, a meu ver) a lei da unanimidade, para depois se opor a ela de forma diplomática e curialmente inaceitável, em vez de a discutir, mais tarde, de pleno direito? Não é, mas assim acontece.
Será compreensível que um governo acabe, propositadamente, com o hesitante mas positivo caminho que o seu país estava, apesar de tudo, a começar a trilhar, substituindo-o pelo descalabro social, económico e financeiro a que vimos assistindo? Não é, mas assim acontece.
Será legítimo, depois dos variados insultos e chantagens em que é mestre, vir um governo esgrimir que a chantagem é dos outros, de todos os outros, e que a solução tem que ser a dele com excepção das de todos os outros? Não é, mas assim acontece.
Será legítimo que, por cegueira ideológica ou exibicionismo teimoso, se reduza a zero a capacidade de um povo inteiro financiar o seu dia a dia, exigindo de terceiros que metem quase cem mil milhões nos bancos, e que tal pedinchice seja feita por quem acusa os demais de ter ajudado os bancos? Não é, mas assim acontece.

É evidente que, se a “solução” vier a ser o que o Syriza propõe, não passará em vários parlamentos e em vários governos. Mesmo a “solução” que os parceiros europeus da Grécia tinham proposto e que o “referendo” recusou, passaria? Tenho as maiores dúvidas.

É possível afirmar, ou aceitar, que as políticas do Syriza tenham alguma coisa de democrático? É, ou seria, com uma condição: que o Syriza decretasse a saída da Grécia do euro e da União, e depois fizesse o que lhe desse na gana. Enquanto estiver comprometido com estas coisas, não pode eximir-se a elas, boas ou más. Nem pode fingir que a tal soberania, com que tanto esgrime, não tem os limites a que se comprometeu, isto é, que não é partilhada com terceiros. Achar que a “soberania” dos gregos, mesmo expressa em referendos duvidosos, se sobrepõe à dos outros, aos que aceitam os seus limites, é digno da “moral” de ditadores, não da de democratas.

7.7.15



7 respostas a “DA MORAL DOS DITADORES”

  1. Avatar de Filipe Bastos
    Filipe Bastos

    O resultado do referendo nem espanta: as sondagens falham, lá como cá; o Syriza foi eleito há meros 5 meses, ainda mantém certo estado de graça; e muitos gregos estão no ponto do nada a perder. A malta jovem, por exemplo, não tem emprego ou perspectivas. Sentem diariamente os efeitos da “austeridade”, neles próprios e nos pais. Votaram “Não” pelo mesmo motivo por que votaram no Syriza: querem uma mudança.Se o resultado foi falseado, como o Irritado sugere, então o Tripas não devia ser demitido – devia ser preso. Mas precisa de mais que uma sondagem falhada, e não tem mais nada palpável. Quanto à legitimidade dos gregos, com ou sem referendo, a sua opinião enferma do mal do costume: atribui aos governos, e neste caso à UE, virtudes democráticas que simplesmente não existem.O peso de cada voto dilui-se desde o momento em que é colocado na urna, até desaparecer por completo. Não decidimos realmente nada, apenas escolhemos “representantes” – esses sim, duvidosos – que depois fazem como lhes dá na gana.Ninguém escolheu, por exemplo, o Gaspar, a Albuquerque, ou sequer o Facas. Muito menos o Juncker. Ninguém votou os calotes que hoje nos cobram. Ninguém votou o acordo da Troika. Ninguém votou a adesão ao Euro. Etc.Neste quadro, é hipócrita dizer que os gregos impõem seja o que for aos outros – todos os governos e todos os “credores” impõem algo, todos os dias, sem perguntar nada. Ou alguém lhe perguntou o que quer fazer, como eleitor e contribuinte, sobre as pretensões da Grécia?

    1. Não é bem assim. Se TODAS as sondagens andam pelos 40/40, como explicar que o resultado seja 60/20? Estaria tudo errado? Não acredito.A nossa Constituição, e muito bem, estipulava que os tratados não podiam ser objecto de referendo, o que, a meu ver, era reconhecer que não é legítimo responsabilizar as pessoas por detalhes que não podem entender. Como sabe, o diabo está nos detalhes. Parece que essa norma já foi abolida, mas fora de tempo.O governo grego não herdou um país de soberania integral, mas uma república com compromissos. Se quer recusar os compromissos, então que tenha a coragem de os rasgar, assim recuperando a “soberania”, a “dignidade”, o “orgulho” e outras armas de arremesso do actual poder. Tal coragem equivaleria à mais desgraçada miséria para duas ou três gerações. Por isso que queiram o melhor de dois mundos, por maus que sejam: sacar o que precisam sem as obrigações e os compromissos adjacentes.Na sua opinião, os governos europeus não deviam ter poder de decisão. Então, por que raio há-de o Syriza tê-lo, e sobrepô-lo ao dos outros?

      1. Avatar de Filipe Bastos
        Filipe Bastos

        Se o entendimento cabal fosse um requisito, quase ninguém assinava contratos. Ou acha que a pessoa comum entende todos os detalhes do contrato da sua casa, do cartão de crédito, ou até da luz?Se essa pessoa puder, recorre a um especialista para lhe explicar o essencial: as obrigações e direitos decorrentes do que vai assinar. Mas a decisão final é sempre dela – porque é ela que paga.Ora, um tratado é um contrato entre países. Ou entre países e credores. O papel do governo é – devia ser – explicar o essencial aos cidadãos, para estes validarem TUDO o que o governo assina. Pois serão eles a pagar.O Syriza foi o único a fazer isto, embora tarde, e apenas sobre uma questão. Mas fez. Pode chamar-lhes tudo, mas Democracia é isto: os cidadãos a decidir. Não o que V. diz. Se falsearam o resultado, bom, então são ainda piores que os outros. Mas se não falsearam, são melhores.Quanto a rasgar contratos, concordo consigo: não se pode querer ter tudo. A questão é que ao rasgá-los a Grécia perderia qualquer força negocial. Não é V. que passa a vida a citar a realpolitik?

  2. Oh, Amigo Irritado, não se irrite!Os camaradas de Atenas estão somente a divertir-se ; estalam os dedos e as baratas sem cabeça das entidades europeias saltam sem saber para onde… saltam.Os gregos há muito perceberam que nesta Europa não se decide nada; adia-se, adia-se, adia-se! Já andam nisto há mais de 5 meses…Consta-me que, hoje, foram marcadas mais 5.451 reuniões todas elas decisivas!

  3. Avatar de daniel tecelão
    daniel tecelão

    O azedume,a bilis,a azia,a diarreia,as agonias,os vómitos,as flatulências,ataca fortemente a direita revanchista e miserável. É bom que se acostumem,há-de vir mais contratempos!!!

    1. Está de volta! Benvindo! Só é pena que, tanto tempo passado, ainda não tenha aprendido nada.

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