Quando eu era rapaz, havia, no Bairro Alto porta sim porta sim, e noutras paragens porta sim porta não, umas casas de “meninas”, raparigas à altura conhecidas pelos ternos epítetos de “tias”, ou “manas”.
Tais estabelecimentos eram licenciados pela ditadura. As profissionais eram objecto de vigilância higiénica e assistência médica, entravam de baixa quando ofereciam perigo para a saúde pública, etc. Tinham, além disso, a mais estrita obrigação de providenciar os meios e produtos necessários à salvaguarda da higiene dos clientes.
Do ponto de vista da saúde pública, a coisa funcionava mais ou menos.
Mais tarde alguém, já não sei se durante a segunda república se durante a terceira, o negócio foi mandado fechar, por atentar contra a moral pública. Muito bem.
O problema é que o comércio não deixou de existir e de prosperar a olhos vistos. Hoje são os jornais quem se encarrega da propaganda legal(?) da prostituição, são os prédios onde moram criancinhas os locais onde se operam as transacções e, mesmo com a proliferação dos antibióticos, as doenças propagam-se, tendo-se acrescentado a SIDA ao respectivo cardápio, o que não é coisa de somenos. À publicidade dos jornais junta-se a “sociedade de informação”, isto é, a internet, os telemóveis, etc.
Vai daí, umas irmãzinhas da caridade, juntamente com uma associação qualquer, propuseram que se criasse, na Mouraria, uma facility destinada a receber as profissionais e a cuidar delas, de forma a não darem cabo da saúde, delas e dos clientes.
É evidente que tal proposta mereceu o imediato repúdio de quem de direito. Bordéis? Não, nunca mais! Os mesmos que propagandeiam a homossexualidade, com o seu cortejo de miséria social e higiénica, os mesmos que defendem que isso do casamento é coisa do passado, a não ser para os ditos, os mesmos que acham que o serviço nacional de saúde é para todos, esses mesmos, ficam horrorizados com a ideia das irmãzinhas.
Vá-se lá perceber o “progresso”!
4.3.12
António Borges de Carvalho

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