Vós sois a melhor coisa do mundo. Sois também, desgraçadamente, uma das coisas de que se fala, pelas piores razões. Ele é os pedófilos, ele é os raptores, ele é a violência doméstica, ele é os professores a fazer greves em vez de ensinar, ele é o acordo ortográfico, ele é os tribunais que as arrancam aos que as amam, um nunca acabar de ameaças e perigos.
Venho avisá-las de que um novo mostrengo se debruça agora sobre a vossa vida, não como o que “está no fim do mar” e que, “na noite de breu” se ergue “a voar”, mas outro, invencível, mais tenebroso que todos ao Adamastores, outro, que não tem “a boca negra e os dentes amarelos” nem a “barba esquálida”, nem figura que se mostre no ar, “robusta e válida, de enorme e grandíssima estatura”.
Não, não tenham medo, como o Dias teve do Mostrengo. Tenham mais!
O novo mostrengo é o fulano em que os vossos pais votaram (violência doméstica!), o mostrengo que mora na Rua da Imprensa à Estrela e tem a mania de ir buscar credibilidade ao nome do filósofo grego na mira de disfarçar a sua rebuscada e violenta iliteracia. Ele é como o abutre da Sophia, “alisa as penas” e “faz tornar as almas mais pequenas”.
A rebuscada crueldade do novo mostrengo lembrou-se de vos atacar na vossa alegria de viver, nos vossos mais simples e inocentes prazeres.
Atenção! Se lhes der uma moeda para tirar de uma máquina uma bola de plástico com uns brindes, ou um chocolate, um caramelo, um bombom, o vosso papá será considerado pelo mostrengo como estando a praticar um crime, um “jogo de fortuna e azar” punível com prisão e multa! Cuidado!
Eu sei, eu sei que não percebeis, que não vos é dado perceber. Eu sei que vós tínheis uma alegria enorme ao ver sair o Nodi e um carrinho da bola de plástico, que desejáveis um chocolate maior do que o da vossa prima mas não ficaveis tristes se não o tivésseis, eu sei, eu sei. O mostrengo também sabe, mas está-se nas tintas. O que anima o mostrengo é poder sacar dos bolsos do vosso papá, em multas, as moedinhas que ele, cheio de carinho, gastava nas bolas de plástico e nos furinhos.
Tende paciência. Procurai esquecer. Como sois jovens, talvez consigueis um olvido rápido e quase indolor.
Mas não vos habitueis a esquecer, senão pode acontecer-vos como aos vossos pais: ficar, inertes, às ordens do mostrengo.
António Borges de Carvalho

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