IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


CONCERTO

 

O IRRITADO vai falar de altas questões, próprias de um sociólogo. Como declaração de interesses, diga-se que o dito, a falar de tais assuntos, é como um escaravelho a cantar o fado. Nesta ordem de ideias, o que segue vale o que vale, eventualmente nada.

Deve-se esta introdução a um “concerto” proporcinado à malta na arena do Campo Pequeno por uma organização “musical” que se chama Korn.

Camiões alemães rodeavam a praça, inúmeros “técnicos” de ruído enxameavam as redondezas com um ar de desprezo pelos passantes. Compreende-se, eram especialistas muito acima dos mortais que por ali andavam, ou levavam criancinhas ao parque infantil.

Parece que o tal concerto estava marcado para as oito. A partir das cinco, começou a juntar-se uma multidão de adeptos, pelos vistos ansiosos por aplaudir os “artistas”. É aqui que começa a história. Quem era tal gente? Não sei. Pareceu-me que, de alguma ignota toca, tinha saído uma humanidade desconhecida, quiçá marcianos ou modernos cavernícolas. Gente nova, digamos entre os dezasseis e os quarenta anos. Todos de preto. Eles exibiam rabos da cavalo, brincos, correntes á cinta, tichartes com caveiras ou frases ininteligíveis, cabelos rasos à esquerda e compridos à direita ou vice-versa, ar aluado, calcinha justa, estranhas barbas e bigodes. Elas andavam de colants aos quadradinhos, de preferência com buracos, calções curtíssimos, cabelos amarelos ou roxos às riscas, botifarras militares, batons pretos, olhos enegrecidos por estranhas pinturas, argolinhas no nariz, nas orelhas, nas beiças, anéis de lata pelos dedos acima. Uma ou outra talvez tivesse sido bonita, mas em geral eram gordas, baixas, e olhavam de esguelha.

A comunidade estava organizada em pequenos grupos, muita gente em pé – interminável bicha -, outros em grupinhos sentados no chão, rodeando garrafas de tinto e de cerveja, erva por todos os lados, trocas de passas, os mais modestos, julgo, fumavam tabaco em cigarros artesanais, as tascas da praça espirravam imperiais em larga quantidade. Estavam relativamante serenos, julgo que na ansiosa antecipação da barulheira “artística” que estava programada.

Dei várias voltas por ali, a apreciar a tribo. Ninguém me chateou, diga-se, por observar as criaturas como se fossem bichos no jardim zoológico. Perguntei-me quem seriam, de onde viriam, onde andavam escondidos nos dias normais. Perguntei-me se alguém nesta cidade daria emprego a gente com tal aspecto. Perguntei-me do que viveriam, se havia desgraçadas famílias lá em casa a vê-los tão degradados e a sustentar a sua mais que evidente inutilidade pessoal e social. Perguntei-me o que se passará naquelas cabeças, e que miserável futuro lhes está reservado. Seria só uma fase das suas tristes vidas, coisa que a realidade se encarregaria de ultrapassar, ou seriam para sempre um virtualmente insuportável peso pessoal e social, numa degradação insuperável?

Não sei. O que sei é que, até depois da meia noite, o bairro tremeu com o soturno ribombar dos Korn, certamente uma chusma de drogados cabeludos a regar a multidão com perdigotos “musicais”, à espera da overdose final.

A coisa já passou. Pergunto agora onde se acoitaram os adeptos, onde se esconderam, onde estarão, o que fazem para comprar mais erva, o que será deles nos intervalos dos concertos.

Como se vê, nada sei de sociologia, “ciência” que, diga-se, não faz parte das minhas simpatias, nem creio que sirva de muito para melhorar a sociedade. Mas quem sou eu nestas matérias, senão um escaravelho a cantar o fado?

 

17.3.17       



5 respostas a “CONCERTO”

  1. Fartei-me de rir. Tem razão. Ouvia os Korn quando tinha 19-20 anos, a par de bandas como os Deftones, Pantera, etc. Claro que isto não lhe dirá nada. São bandas de “metal”, um tipo de rock mais pesado que surgiu nos anos 70, e que teve o seu apogeu nas décadas de 80 e 90. Havia tantas que se dividiram em subgéneros: heavy metal, speed metal, power metal, nu metal. Já pouco ouço Korn, mas, tal como há 20-25 anos, quase só ouço música dita “clássica” e metal. Jamais consegui gostar de pop, jazz, blues, discotecas, ou qualquer tipo de batuque africano/americano. Não é uma coincidência. O metal, embora nem todo, será o tipo de música popular/moderna mais próximo da música clássica, e o mais distante dos batuques tão do agrado das massas de hoje. Claro que, ao ver essa malta chunga do concerto dos Korn, jamais o diria. Mas nem todos fazem essas figuras. Eu não punha lá os pés se me pagassem. E sim, os músicos são drogados cabeludos… e quarentões, o que torna a coisa mais deprimente.

    1. Obrigado pelos seus esclarecimentos. Tal como escrevi, sou um ignorante na matéria. Não pensei que os tipos fossem tão antigos. Vou perguntar aos meus filhos que, coitados, nunca andaram na passa, não deixaram crescer o cabelo e, imagine-se, nunca foram à missa! Abraço.

      1. Nunca foram à missa! Mas paparam a “hóstia”?

  2. Desconhece o “NOVO MUNDO” (desconstruir)?Parece que sim- No entanto é o “mundo” que construiu! O problema +e que é este “mundo” que destruirá o NOSSO. Eu estou preparado. O IRRITADO parece que não está.

    1. Tenho a certeza de que jamais contribuí para a criação de tal mundo. E vou resistindo como posso.

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