Quando, há já muitos anos, começou esta história das declarações de interesses dos titulares de cargos políticos e de outras pessoas da administração pública, achei um abuso, uma intromissão ilegítima na vida de cada um e, pior que isso, a consagração do “princípio” de que tais pessoas são, por natureza dos cargos, suspeitas de tudo e mais alguma coisa.
Mantenho, sem reservas, a minha posição. No entanto, já que a regra se consagrou sem oposição que se visse, haverá que dar-lhe “corpo”, isto é, que pôr à disposição da curiosidade e das suspeitas públicas um mais vasto leque de opções pessoais, integrando-as nas obrigações declarativas. Ou há moralidade ou comem todos, não é? É claro que se trata de uma caixa de Pandora passível de ser usada para todos os fins, mormente ilegítimos e de uma grave limitação à privacidade dos atingidos, além de ser, sem dúvida, uma das razões para a degradação da qualidade da generalidade dos membros da classe política. Muito boa gente se distancia da política para não ter que se despir à vista de todos. Mas, numa sociedade em que a denúncia anónima, a bufaria, o pidismo, são incensados pela justiça, em nome de uma falsa “transparência”, qual é o espanto?
Assim, se é verdade que não vale a pena lutar contra a obrigatoriedade de tornar públicos os interesses, os bens, as contas bancárias, as fidelidades profissionais e outros elementos da vida de cada um, por que carga de água haverá excepções? Se uns são obrigados a trazer a público os seus dados pessoais, como é que outros, que nunca contra tal se manifestaram, hão-de ficar de fora quando se sentem atingidos?
Vem isto a propósito da indignação das maçonarias, largamente propagandeada nos media, perante a eventual obrigatoriedade de se declarar a filiação em tais organizações, ditas “discretas”. Então, se um eleito é obrigado a dizer que tem um T2 em Vilar de Perdizes (coisa suspeitíssima!), ou umas acções da EDP (coisa ainda mais suspeita), porque é que não deverá declarar que é sócio do Sporting, dirigente de uma ONG, membro de uma congregação qualquer? E porque é que os maçons hão-de ficar de fora?
Declaração de interesses: estou-me nas tintas para as maçonarias, coisa ridícula, para não dizer sinistra e, sem dúvida, obsoleta. Se os maçons são tão bons como dizem, porque é que não têm orgulho em mostrar-se?
Voltarei ao assunto, quando me apetecer.
19.3.21

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