Na semana passada tivemos, durante horas e horas de televisão e ao longo de quilómetros de papel, contritas e ditirâmbicas exéquias pela morte de um senhor, Branco de seu nome, alta figura do nacional-bolchevismo e do chamado cançonetismo de intervenção. Como tantos outros, dedicou-se à queda da II República, o que não foi mau, e à sua substituição por uma ditadura mil vezes mais feroz e sanguinária, o que foi péssimo.
O desgosto da Pátria foi de dimensões gigantescas. Ao ponto, imagine-se, de se sobrepor, substituindo-as, às intermináveis lições de futebol com que somos diariamente esmagados.
Eu sei que aos mortos se deve sempre a maior das homenagens, verificado que seja que estão bem mortos. E até compreendo que, para os apreciadores do género, a música produzida pelo falecido fosse de alto valor cultural, marcasse uma época e tivesse, por isso, importância histórica. Longe de mim dizer, sequer, que o falecido não merecia tais homenagens por parte dos melómanos e dos seus adeptos ideológicos. O que critico é o espantoso exagero da coisa. Se morresse o Papa, a Rainha de Inglaterra, o Presidente da República, não tenho dúvidas de que as notícias, as homenagens, os artigos de opinião, as reportagens, o renascer de arquivos, não passariam, em comparação com as prestadas ao senhor Branco, de notas de rodapé.
*
Ontem, a filha de um senhor chamado Nascimento, publicou nos jornais a participação do passamento do seu pai. O senhor Nascimento, português de origem africana, em tempos, ganhou o concurso da cantigas da RTP. É evidente que este cançonetista não o foi de “intervenção”, nem a sua fama se prolongou pelos tempos fora. Mas, que diabo, mereceria uma ou outra pequena referência, fosse onde fosse. Que eu visse, mereceu zero!
Não faço ideia da história do homem, do que fez ou foi fazendo ao longo do tempo, nem, ao que me lembro, gostei da canção com que ganhou o tal concurso. Mas algo me diz que o senhor Nascimento não era esquerdista nem teve qualquer influência nos acontecimentos políticos supervenientes. Daí o zero.
26.11.19

Deixe um comentário