IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


A VONTADE DO POVO

 

Por razões que julgarei respeitáveis, os votos de melhoras que resolvi mandar à dona Ângela tiveram o condão de disparar alguns interessantes comentários sobre a excelência das nacionalizações. Dando de barato tais eventuais razões, haverá que esclarecer que, pelo menos no distinto pensamento do IRRITADO, nada poderia vir mais a despropósito.

 

Mas merece uma pequena reflexão. É que há estimável gente que, preocupadíssima com os “maus”, que integram os partidos, e os “bons” que são os que estão de fora (o IRRITADO está de fora há para aí vinte anos, mas não se considera nem “bom” nem “mau” por causa disso), acabam por ir tão longe nas suas reflexões que são levados à conclusão que o Estado se deveria meter ainda mais na economia e na vida de cada um. É que, pensarão como o senhor Victor Melícias que “quem não rouba nem herda, é rico mas é uma merda”. Ou seja, para se ser “bom”, é indispensável não ter passado da cepa torta. O raciocínio prossegue: é preciso acabar com os “maus”, substituindo-os pelos “bons”, que não se sabe quem sejam nem haverá forma de determinar, o que parece não preocupar os preocupados.

Desta postura até chegar à excelência das nacionalizações vai um passo. Mais um passinho, e está-se na “reforma agrária” que, manu militari, converteu o Alentejo num mar da mais inacreditável bagunça agrícola e no mais repenicado insucesso económico. Das nacionalizações, atitude, à data, totalmente selvática, temos ainda inúmeras floridas consequências: um jardim de empresas públicas, todas gloriosamente deficitárias, todas sem excepção a viver à nossa custa. A estas, junta-se a actividade em que o PS de Pinto de Sousa se especializou: tirá-las do orçamento, transformando-as nessa coisa fantástica que são as empresas de direito privado e capitais públicos. Veio a UE e acabou com (mais) esta aldrabice. Daí, os que se seguiram apanharam com uma dívida a dobrar e com um défice anteriormente inimaginável, por “inexistente”.

Postas de lado as nacionalizações, há, em alguns dos meus estimados críticos, o honesto objectivo de fazer com que a política sirva para “fazer a vontade do povo”. Duas observações: primeiro, não se sabe o que é esse povo; segundo, há o problema de se saber como determinar a “vontade do povo”. Precederá a questão de saber se os “maus” são do povo, ou se devem ser abatidos no Campo Pequeno, como opinava o assassino Otelo? Em alternativa, talvez metê-los num campo de concentração.

Por outro lado, como se determina a “vontade do povo”? Há quem proponha que tudo, mas tudo, desde o urinol público aos decretos do governo e às leis do parlamento, deve ser submetido a referendo popular. Bonito! Resta ainda saber se a tal “vontade do povo” é, por natureza, boa para o dito. É que, no estado a que as coisas chegaram, e até antes dele, o povo é um amontoado de indivíduos, cada um com os seus interesses próprios, cada um a querer sempre mais e a não admitir que lhe toquem na vidinha: só na dos outros, como vem sendo demonstrado à saciedade nos tempos que correm, dos juízes aos contínuos, dos generais aos básicos, dos administradores aos motoristas da Carris, e por aí fora, tudo minha gente a defender a sua capelinha. Só não protesta quem mais precisa, com certeza porque quem mais precisa, ou quer trabalhar, ou, na sua modéstia, nunca foi tocado pelos males dos tempos.

 

Eliminar o processo de legitimação do poder, em vez de optar pela sua reforma – vão lá falar nisso ao PS! – parece ser a pior forma de determinar a vontade do povo, se é que a há. É evidente que os programas eleitorais mais não são que intenções, é evidente que os eleitores votam mais em pessoas e são mais levados por simpatias que por ideias. Não é o que acontece em toda a parte? Será um defeito do sistema? Talvez.

 

Deixar-se cair em receitas estatistas ao mesmo tempo que se abre caminho ao poder piramidal é o mesmo que optar por uma férrea ditadura, coisa que o diabo escolheria mas o IRRITADO não.

 

Aqui fica, para alguns, sucintamente, a forma como o IRRITADO vê o que seria o resultado do maniqueismo primário a que são levados a cair nestes tristes tempos de magríssimas vacas.

 

7.1.14

 

António Borges de Carvalho



4 respostas a “A VONTADE DO POVO”

  1. “A VONTADE DO POVO”, ninguém tenha duvida, é afastar o “G” (de grupo ou governo, tanto faz) de malfeitores que MANDAM nos seus (do Povo) destinos e os ROUBAM.2015 está perto. “Ganhará” aquele “G” que responsabilizar os malfeitores.

  2. Começando pelo fim, agradeço o «maniqueísmo primário», pois comprova o espírito democrático deste blog: nem só ao autor é permitido ser maniqueísta (e primário), os leitores também o podem ser. Mas esta ideia – mudar a democracia – não advém das vacas magras, é válida para todas as vacas, e inclusive para democracias mais avançadas, como as nórdicas. Ou o Irritado pensará que já se inventou tudo, e que isto das eleições, dos representantes, dos monarcas, dos sistemas de escrutínio e de governo que temos hoje, nunca há-de evoluir? Talvez pense; talvez veja o mundo daqui a centenas de anos, se existir, ainda dividido entre esquerda e direita, entre os mesmos slogans estafados e os mesmos mandantes todo-poderosos. Deus nos livre. ———————————— Outro ponto revelador: «Resta saber se a tal vontade do povo é, por natureza, boa para o dito». De uma assentada, reduz a pó qualquer democracia, incluindo a actual. Pois se nem sabemos o que é bom para nós, então como podemos – e por que havemos de – ser nós a decidir? É um absurdo; é como confiar decisões importantes a crianças. Detesto voltar à vaca fria, mas o Irritado gosta mesmo é de MONARQUIAS: toda a gente submissa a um Rei, que já nasce e morre Rei, e que faz o que lhe dá na real gana sem dever satisfações a ninguém. E na falta dele, gaba sempre a autoridade dos políticos. Um político pode (quase) tudo. Neste quadro de “übermensch” e “untermensch”, cujo mote é um cristalino comes-e-calas, será de estranhar que referendos e uma Democracia Directa (ou mais directa) lhe pareçam tão descabidos? E será de estranhar que considere «legitimação do poder» as eleições pífias que temos, baseadas em mentiras, com a desfaçatez e a impunidade que o actual governo tão bem ilustra? O Irritado aceita reformar o sistema, sim; mas apenas dentro de limites muito estreitos, que jamais coloquem em causa o seu sagrado status quo. E apenas este o pode reformar, como muito bem entender. Assim nada vai mudar. Ou só mudarão as moscas. ———————————— Quanto às nacionalizações, merecia um post à parte… viveu esse tempo de perto, não quer explicar melhor o que aconteceu? Uma sugestão de partida: os “empréstimos” a fundo perdido dos banqueiros a certos partidos, e pessoas – incluindo Sá Carneiro? Outra: as falcatruas da Banca descobertas com a nacionalização?

    1. Que diabo, v. é comichoso”!Então eu chamei-lhe “respeitável”, “estimável”, falei em “estimados críticos”, atribui-lhe um “honesto objectivo”, e v. só leu essa do “maniqueísmo”? Talvez o “primário” seja demais: de bom grado o substituo por “ingénuo”.Ao que disse, um só comentário, ou esclarecimento, se quiser: Sá Carneiro não devia nada a ninguém, como foi provado, e de tal maneira que o acusador (o PC) nem sequer recorreu.

      1. Era só um comentário espirituoso… é verdade que o Irritado prima pela boa educação, mas esses elogios pareceram-me algo paternalistas, do tipo “coitado do rapaz, sempre iludido”, etc. Continuo por esclarecer quanto às nacionalizações. Só sei o que li, e não li tudo. Quer-me parecer que, além da incompetência comuna, foram deliberadamente sabotadas – pelo regime podre que tomou conta disto, pelas directivas do FMI, e pela proverbial apatia tuga.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *