IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


TURMAS

Em tempos que já lá vão, as turmas dos liceus tinham, no mínimo, 30 alunos. Em não poucos casos, o número subia aos 40 e até a mais. Não consta que a indisciplina fosse proporcional ao número de alunos por turma, nem que os ditos aprendessem mais ou melhor na razão inversa de tal número.

Se eu disser isto a um tipo da esquerda, responder-me-á que, naquele tempo, o ensino era uma coisa elitista, só alcançável pelos filhos da burgeusia. Mentira. O Liceu Passos Manuel, onde passei seis anos, era o mais interclassista que se possa imaginar. Cobria a sociedade de alto a baixo, dependendo a frequência mais do interesse – ou da capacidade de sacrifício – dos pais, que da selecção classista dos alunos. Mas não cobria o território, era privilégio dos grandes centros urbanos, o que limitava muito mais a frequência dos liceus que qualquer selecção social. Tinha colegas que vinham, todas as madrugadas, do Barreiro, do Seixal, do Montijo… eu mesmo, sendo lisboeta, levava mais de uma hora de casa à escola. Toda a gente pagava propinas, à excepção dos melhores alunos e dos poucos que para tal tinham protecção social, coisa rara à época

Mas aprendia-se. Não pouco. Era-se sujeito a dura disciplina. Na falta de um professor, os miúdos faziam uma quete e compravam, numa velhinha que havia à porta, uma bola de trapo (5 tostões as pequenas, 10 tostões as grandes). E jogávam futebol num sítio proibido, sendo todos admitidos no jogo, mesmo os que não tinham contribuído para a bola com moedas de meio ou de um tostão. Uma versão “fascista” de desporto escolar espontâneo.

Os tempos mudaram para muitíssimo melhor . O ensino aproximou-se das pessoas e tornou-se praticamente gratuito, à excepção do escandaloso caso dos manuais: acordo ortográfico, corporações de autores, crescentes interesses editoriais, tudo coisas a que governo algum, na ânsia de “inovar”, conferiu equilíbrio ou bom senso.

Sempre houve bullying, gente disciplinada e indisciplinada, tipos malcriados e sossegados, bons e maus alunos. Os professores aguentavam sem se queixar de stress ou de ofensas à sua intocável “dignidade”. Davam aulas de substituição sem pedir dinheiro ao Estado. Acompahavam os alunos, fossem 30 ou 45. Salvo raríssimas excepções, eram respeitados e, se não o fossem, o mal era mais deles que dos gandulos da turma. Faltas de castigo havia-as aos pontapés. Suspensões também. Mas não havia estatísticas, nem psicólogos, nem “gabinetes multidisciplinares de acompanhamento”. A coisa ia andando, mais melhor que pior.

Hoje, o professorado é uma corporação importantíssima por auto classificação e por poder, não tanto o merecido “poder docente”, mas o vigoroso “poder sindical”. Aqui sim, uma questão classista. O poder sindical é totalitariamente dominado por uma central bolchevista. A “qualidade” do ensino mede-se em professorais privilégios, horas a menos, trabalho a menos, “direitos” aos pontapés, feriados, férias, tempos livres, dispensas.

A propalada descentralização do ensino, correspondendo a uma proximidade maior da escola em relação às comunidades, é o inimigo números um dos sindicatos, que temem a pulverização da força de protesto, do poder da rua, da autoridade dos líderes. A escola deixou de ser um local onde a prioridade é o ensino para passar a funcionar com um “local de trabalho” da classe dos professores, a qual, pela ordem natural das coisas, tem prioridade sobre tudo o resto. Para tal se fabricam inúmeras estatísticas, se elaboram “estudos”, se divertem “pedagogos”, se justifica o que convém.

É neste ambiente que se inserem, de pleno direito, as novas teses do BE e do PC sobre o número de alunos por turma, ao que parece com a obediência canina do PS e a benção carinhosa do CDS. Descobriram uma universal solução: se se quiser mais sossego, menos indisciplina, melhor ensino, venham turmas mais pequenas, e pronto! Genial. Uma coisa social e politicamente inexistente chamada “Verdes” chega ao ponto de querer um número máximo de 19 alunos por turma! Multiplique-se o número de professores por dois, mais emprego, mais adeptos, mais votos.

Que importa que o ensino fique na mesma?

 

15.3.16



Uma resposta a “TURMAS”

  1. Até talvez ao 8º ano, pouco joguei com bolas de trapo: jogávamos mais com pacotes de leite. Davam-nos uns pacotes todos os dias, creio que ao almoço, que nós depois amassávamos e usávamos como bola. A minha escola tinha uns bancos de cimento em frente às salas de aula, muito desconfortáveis, que devem ter parecido uma grande ideia a um arquitecto qualquer. Os bancos não chegavam ao chão, tinham um espaço por baixo, que servia de baliza.Como os pacotes eram irregulares, era preciso certa habilidade para fintar e correr com aquilo. E como tudo à volta era de cimento, quedas e empurrões doíam a valer. Nunca parti nada, mas nódoas negras era mato.Além do futebol de pacote, jogava ao berlinde (às três covinhas) e ao “espeta”: íamos espetando um ferro no chão e ocupando terreno ao adversário. Requeria estratégia, talvez tipo jogo do risco, e pontaria.Os dias de Educação Física eram os mais festivos: as janelas do balneário das raparigas eram altas mas relativamente desprotegidas. As turmas tinham cerca de 30 alunos, nunca muito menos, nunca muito mais. Já não apanhei os tempos duros do Irritado, mas havia ainda poucas mariquices: até eu, bom aluno, fui posto na rua e apanhei faltas disciplinares – todas merecidas. Pancada (reguadas) só na Primária.Professores: alguns eram bons, uns poucos muito bons, a maioria era assim-assim. Havia muitos baldas, que desapareciam durante semanas, alguns durante meses – passavam quase todo o ano de baixa em baixa.E hoje? Nem era preciso o governo xuxo-comuna: após décadas de sindicatos e governos do Centrão, que restará para estragar?

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