Andamos todos chocados, horrorizados, com a migração dos sírios. Às centenas de milhares, correndo riscos enormes, conduzidos quantas vezes por contrabandistas de carne humana, a pé, em frágeis barquinhos, de qualquer maneira, fogem à carnificina em que o seu país mergulhou. Nunca as gerações europeias dos últimos setenta anos tinham visto algo de parecido. Os fugitivos têm que ser acolhidos. Toda a gente o sabe, mesmo os que têm tido imperdoáveis reacções.
Não é fácil organizar uma operação desta natureza e magnitude. Mas não é impossível. Por cá, recebemos os “retornados”, empurrados pela barbárie que se seguiu à tão celebrada descolonização, e absorvemo-los quase sem sentir. Éramos nove ou dez milhões. Recebemos uma mole humana de quase um milhão. Mutatis mutandis (os nossos eram portugueses, da mesma cultura, com as mesmas raízes, os de agora são estrangeiros, outra cultura, outras raízes), o que se passa é que os duzentos e cinquenta milhões de europeus tentam organizar a recepção de, para já, cerca de um terço dos que nós recebemos. E têm dificuldades para se entender. Quando surgem problemas novos, as soluções não aparecem, nem de um dia para o outro nem por artes mágicas.
Não entro na contrição generalizada que o politicamente correcto tem vindo a fabricar. Em Portugal chega-se ao ponto de o PS usar os migrantes como arma eleitoral! Não me passa pela cabeça, como soe fazer-se por aí, culpar a Europa do que se passa. Sabe-se de quem é a culpa e, se a Europa, ou a chamada comunidade internacional, cometeu erros políticos graves a partir do surgimento das chamadas primaveras árabes, fê-lo porque a natureza do fenómeno parecia de saudar e apoiar. A Europa e os demais países civilizados têm dificuldade em compreender aqueles para quem a liberdade não é um valor!
A Hungria, dos países da União, é tida pelo pior exemplo de xenofobia. Não direi o contrário. Mas, ao ouvir ontem o negregado líder desse país dizer, não sei se com sinceridade, que mais não fazia que guardar as fronteiras de Schengen, ou seja, documentar os migrantes antes de os deixar passar, já não sei se o homem, pelo menos aparentemente, não tem razão. Nada que justifique muros, arame farpado e cargas policiais. Mas documentar os que chegam não será um mau serviço, para eles e para a União.
A Alemanha, por muito que custe à vociferante legião de inimigos da senhora Merkel, é, de todos os países europeus, o que tem tido resposta mais pronta e mais humanitária.
Portugal prepara-se, com rapidez, para responder também, por muito que custe ao senhor António Costa e às suas hostes.
Atirar pedras, vociferar acusações, mimar “arrependimentos”, não só não serve para nada como, em face do problema, é de uma cobardia sem nome.
4.9.15

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