Quando, há uma data de anos, o inefável Guterres chegou à conclusão que tinha levado país para um “pântano” onde refocilávamos “de tanga”, estava não só a fazer uma honesta autocrítica como a falar verdade.
Mais tarde, a dona Manuela desatou aos gritos: não há dinheiro, não há dinheiro, não há dinheiro! E, chegada ao primeiro balcão, vai de inventar os PEC’s (pagamentos especiais por conta), as receitas extraordinárias, as vendas de dívida e outras martingalas.
Pela mesma altura, um indivíduo, oriundo de duvidosos e obscuros projectos camarários e de cursos de inglês técnico, aparecia (lembram-se dos debates com Santana Lopes?) a dizer que a dona Manuela era uma ignorante, que preciso era investimento público, que a economia crescia com ele, etc. e tal.
Tal e tão sabedor fulano subiu ao poder e por lá ficou intermináveis anos. Prometeu o céu, e fez, correcto e aumentado, aquilo que achava que a dona Manuela devia ter feito. O problema é que se enganou nas agulhas: o que fez levou ao inferno, não ao céu. Mas a auto-crítica e a honestidade, com ele e até agora, tinham deixado de fazer parte da “moral” do Largo do Rato.
É no inferno que estamos. Mas parece que ainda há quem não queira perceber que, com o brutal empurrão daquele artista e a barafunda europeia, sair do inferno não é coisa para que se possa ver prazo. Há umas luzinhas, é certo, mas a obra suja do tipo dos exames ao Domingo não é coisa que se destrua a curto ou médio prazo. Talvez a muito longo prazo, mas não é certo. Certo é que, mesmo nesse muito longo prazo, as feridas que o homem rasgou na nossa carne, mesmo que saradas, deixarão irrecuperáveis cicatrizes.
Quem se recusa a perceber (dona Manuela incluída – mas não conta, é dor de cotovelo), bem como os seguidores do autor da proeza, exige ao governo “a verdade”. Mas, se a verdade do governo for a esperança, o governo está a mentir. Demita-se! Se o governo disser que as dificuldades estão para durar, então o governo, para além de ter falhado, tem um discurso derrotista. Demita-se! Se o PR diz que prefere um programa cautelar, é porque o governo falhou e o PR está feito com ele. Mas se o PR tivesse dito que preferia uma saída “limpa”, ai Jesus que está a ceder à dona Ângela.
Para cúmulo, hostes de descontentes de “alta representatividade”, da direita e da esquerda, vêm clamar pela “reestruturação da dívida”, nova panaceia, ou novo placebo. Verdadeira descoberta da pólvora. Como se não fosse coisa que se conversa de há muito, mas que, como é evidente, tem que ser tratada com pinças, não com manifestos de quem quer galarim.
Com cautelar, sem cautelar, com seguro, sem seguro, à irlandesa, à argentina, direitinho, à balda ou à laia da gaita, não há saída limpa. Poderá correr melhor ou pior, poderá continuar ou não continuar a relativa melhoria das coisas. Certo é que de “limpeza” terá pouco.
O PM já avisou que isso de salários e pensões foi chão que deu uvas: tão depressa não sairão da cepa torta. Disse a verdade. Fez mal. Como mal faria se dissesse o contrário, não é, ó Pacheco, não ó Capucho?
O que vale é qaue podemos ficar descansados: o Tribunal Constitucional já veio declarar que não deixa. Não se sabe se descobriu uma mina de ouro ou se se prepara para prestar mais um alto serviço ao país.
11.3.14
António Borges de Carvalho

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