A abarrotar de laca, dona Maria do Alto do Pina, perdão, de Belém, mini Presidente do Oco e aderentes, disse de sua justiça sobre a manifestação das forças ditas de segurança.
Em cândida confissão da verdade verdadeira, pronunciou-se desta forma: “Há que agradecer à CGTP, pela sua capacidade de organização e respeito democrático”. Numa frase, resumiu a natureza das coisas: profissionalismo de alto gabarito, legitimidade, eficiência, etc., o costume.
O elogio à agremiação do Carlos contrastou com as doutas apreciações que a distinta criatura fez das atitudes do governo e da coligação. Neste caso, esganiçou a alta capacidade de diatribe que deve ter cultivado na leitura das epístolas de São Soares aos ignaros. O governo tem uma “atitude de confronto”, “faz mal as coisas”, tem “atitudes provocatórias”, mostra “impreparação” e “relativismo moral”, “trata tudo por igual ao pontapé”, sofre de “falta de jeito”, os seus membros são “imaturos”, “desprezam as instituições”, desconhecem “a geopolítica das emoções”, “não percebem nada do assunto”, nem “que há limites”, “quebram diversas barreiras” e são a evidente causa dessa “manifestação contra o governo” que consiste em “as mães matarem o filho e suicidar-se a seguir”.
Tudo isto, segundo a genial declarante, causa imensa “mágoa”, quer dizer, segundo o IRRITADO, deve desorganizar a laca. Pobre senhora!
Por acaso, um dos líderes sindicais da polícia veio à televisão dizer que a culpa de tudo era do governo anterior, não deste. Mas o homem ou estava enganado, ou não fazia parte das hostes da CGTP que a adorável senhora tanto aprecia e louva.
Não conta.
Houve elogios ao ministro que, vagamente, perpassaram nas notícias.
Não conta.
O que conta, para a generalidade da “informação”, é que, revelando alto civismo, os polícias se portaram “à altura”, não se sabe de quê mas à altura. Por outras palavras, coitados, só deitaram abaixo as barreiras metálicas e só subiram uma dúzia de degraus da escadaria, porque “não quiseram subir mais”. Só usaram potes de fumo negro, só feriram dez colegas –ferimentos ligeiros! – e, coitados, na versão do IRRITADO, só não subiram mais na presunção de que os feridos deixariam de ser ligeiros. Exemplar!
É claro que os arautos da reacção dizem que havia uma data deles com bebedeiras das antigas, outros mascarados, outros armados da varapaus (bandeiras!).
Não conta.
O que conta é que os polícias, como os estivadores, os juízes, os militares, os contínuos, os motoristas, os maquinistas, os enfermeiros, os calceteiros, o Presidente da República, a dona Manuela, as corporações, tudo minha gente está, como não podia deixar de ser, “acima”, “fora”, “para além” do âmbito dos efeitos da austeridade. Uns porque, como os polícias, têm “missões especiais”. Outros porque são, eles próprios, “especiais”. Outros porque sim.
De acordo que é preciso dominar a crise, a dívida, etc., desde que tal lhes não toque na vidinha. Nesta matéria, o IRRITADO está com eles, farto de impostos e sem saber como vai pagar as dívidas que lhe arranjaram. Força camaradas! Alguém há-de pagar. Eu é que não, xiça!
Outro facto altamene positivo que urge assinalar é a bonomia “democrática” como a generalidade da “informação” foi, ao longo das tropelias, comentando a coisa. A justa luta da polícia contra a polícia foi tratada com punhos de renda por meninas e meninos, senhoras e senhores dos jornais e adjacências, bem como pela “simpatia” da dona Assunção. Os comentadores, por seu lado, desdobraram-se em considerações de compreensão e estima.
O que vale é que as ondas, mesmo as mais alterosas, acabam na praia.
7.3.14
António Borges de Carvalho

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