Anda por aí uma onda de homenagens a Álvaro Cunhal.
Que o PC as faça, as organize, é de aceitar. Que os meios lhe dêm parangonas, que vá: sabe-se do que a casa gasta.
Mas que a Democracia, o regime, o Parlamento, dobrem o cerviz perante um seu tão tenebroso e virulento inimigo, já não pode ser aceite por quem tiver algum resquício de amor à Liberdade.
Um dia destes, no salão nobre da AR, sob a diáfana presidência de dona Assumpção, os ”pais da Pátria” vão assistir a um filme qualquer sobre a vida da sinistra criatura. É normal? Com certeza que não. É vergonhoso. É como se o cordeiro homenageasse o lobo!
Cunhal lutou contra a ditadura? Com certeza. Com que propósito, com que meios, com que efeitos?
O propósito, como veio a confirmar-se, nada tinha a ver com Liberdade e com Democracia. Tinha a ver com a instauração de uma ditadura estrangeira, a mais totalitária de todas as “disponíveis”.
Os meios, internamente (segundo confissão de muitos dos seus, dissidentes ou não), eram tão desumanos quanto o propósito. Externamente, foram uma espécie de alimento e de desculpa para a “meritória” obra da PIDE.
Os efeitos foram, via medo do comunismo soviético, desculpar, perante muita gente, as malfeitorias da ditadura. E prolongá-la por anos e anos. Não é verdade qu o PC se opôs a todas as tentativas de democratização da República? Não é verdade que sempre as apodou de “manobras da burguesia”, de “enganos para o povo”, de “inspiração imperialista”, etc.? Tudo isto está escrito no “Avante!” da época. Cunhal só aceitou o 25, ou porque não teve forma de o evitar ou porque a célula do PC no Exército lhe garantiu tenaz apoio e brilhantes resultados.
Álvaro Cunhal era um agente soviético puro e simples. Prometendo a liberdade, queria instituir os goulags, os assassínios em massa, tudo em nome de amanhãs que cantam e que jamais cantaram, bem pelo contrário, fosse onde fosse, causando sofrimento e miséria para milhões de seres humanos e dezenas de nações.
Era inteligente? Com certeza. Mas o importante da inteligência é a forma como quem a tem a usa. Sobretudo quando tal uso tem a ver com os outros.
Álvaro Cunhal pode ser, para investigadores e oportunistas (olhem aquela fulana da televisão que vem “humanizá-lo” em livro!), um tema interessante. Mas ser objecto de veneração pelo nossos representantes é uma inominável ofensa à democracia e aos democratas, aos portugueses em geral e ao país.
O PC, sim, que homenageie o seu santinho predilecto. Mas mais nada, mais ninguém decente e digno o deveria fazer.
Sabe-se que o PC continua, como sempre, a falar de democracia. Só que a democracia do PC não tem nada a ver com a Democracia, mesmo com a democracia da Constutição. Quando o PC defende a Constituição, não é a Democracia que está a defender, mas a demagogia comunista nela ínsita.
É por isso que, às vezes, lhe foge a boca para a verdade. Por exemplo quando um alto dirigente diz que a Coreia do Norte é capaz de ser uma democracia, por exemplo quando lemos o “Avante!” dos nossos dias, por exemplo quando ouvimos o discurso do Jerónimo nas comemorações do padroeiro.
Não haja ilusões. O PC de hoje, vista o disfarce que vestir, é igualzinho ao que sempre foi.
Diferente é a dignidade dos que, fora dele, homenageiam Cunhal: ou nunca existiu ou já morreu.
5.11.13
António Borges de Carvalho

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