Como diria o amigo banana, nada há que não acabe. Entre tudo, por exemplo, acaba o poder.
Acabaram os egípcios, os potentados da antiguidade oriental, acabou Alexandre, acabou César, o Império Romano, o Turco, os maias, os astecas, os impérios modernos, tudo.
Quando o Imperador romano resolveu adoptar o cristianismo para unificar o império, conseguiu-o, mas deixou que os bárbaros o destruíssem ao mesmo tempo que tomavam conta da religião e, conservando-a, davam cabo do poder de quem lha tinha trazido. Dividiram-se, como sempre, a seu bel-prazer, seu sangue e ambição.
Abundam exemplos destes.
É fatal olharmos para o nosso mundo e pensarmos o que com ele se está a passar.
O Ocidente entregou a terceiros os seus impérios políticos. Manteve a sua superioridade mental, e moral. Está por demonstrar que uma coisa se possa manter sem a outra.
O mundo inteiro viveu e progrediu sem poder dispensar essa superioridade. O Ocidente fornecia o necessário, na ciência, na tecnologia, na agricultura, em tudo: nada era possível sem o apport do que só o Ocidente pensava e fazia.
Causticado pelas suas próprias guerras, o Ocidente tentou livrar-se delas concebendo um caderno de encargos de princípios, de normas e de sistemas políticos e económicos tendencialmente universais. Depois, expandiu tal caderno a todos os “bárbaros”. Até os mais renitentes, mal ou bem, total ou parcialmente, o foram adoptando.
Por via dos meios tecnológicos e dos princípios que o Ocidente inventou e expandiu, deu-se a globalização. A princípio acusada por esquerdismos bacocos (Saramago, por exemplo) de ser uma forma de dominação ocidental para perpetuar o “império”, a globalização produziu o efeito contrário, como qualquer ser minimamente esperto podia facilmente prever.
Outros mundos – quem pode condená-los por isso? – pegaram no saber ocidental e aplicaram-no às suas vidas e às suas economias como entenderam e na parte que mais lhes convinha. Começaram eles próprios a entrar no processo do desenvolvimento científico e tecnológico, até então exclusivo do Ocidente.
Este, se queria manter o estilo de vida que concebera, se queria poder sustentá-lo, fronteiras abertas a tudo o que necessitava em melhores condições que o produzido “em casa”, teria que manter um avanço mental de tal ordem que continuasse a ser líder da ciência, da tecnologia, da inovação, do progresso.
Mas a velocidade dos “bárbaros” acelerou, pela simples razão que passaram, usando ideias e princípios ocidentais a utilizar de forma menos custosa o que tais ideias e princípios lhes tinham outorgado. Ao mesmo tempo que o Ocidente se entretinha a sustentar o insustentável, pela simples razão que tal sustento – produtos e dinheiro – passou a ser produzido por terceiros e a ser vendido sem barreiras.
Gerou-se assim uma atmosfera de declínio. Os ocidentais estão agarrados ao que julgavam garantido sine die e, mesmo que pudessem modificar o seu modo de viver em conformidade com o que se passa – o que, pelo menos pacificamente, não é possível – é duvidoso que ainda fossem a tempo.
Há zonas do Ocidente que, mercê de melhor ou pior governação, se afundam mais devagar ou mais depressa.
Mas quando o impossível, tornado óbvio, atinge grandes potências europeias e, como se tem visto nos últimos tempos mas era há muito previsível, chega aos Estados Unidos, algo de extremamente grave se passa. Pior, se acelera.
Quando a China, por exemplo, quiser levar em linha de conta o que já toda a gente percebeu – que os EUA estão arruinados – o que acontecerá? Quando a moeda que serve de troca ao mundo inteiro cair de podre, qual a solução? E se, ao euro, como parece perfilar-se, acontecer a mesma coisa, mais que não seja por arrastamento, o que será de nós?
Considerando as perspectivas pessimistas – ou realistas – do IRRITADO, qual a solução? O que tem o IRRITADO a dizer para dar alguma esperança de futuro aos ocidentais, que vêm a vidinha a andar para trás?
A resposta é: nada.
Milagres não há. A força do Ocidente migra todos os dias mais um bocadinho. Resta saber que geração apanhará com as últimas consequências. Talvez seja possível “entreter” mais uns tempos. Solução, porém, não parece haver, pelo menos em paz. Os “barbaros” estão aí. O “império” vacila.
O IRRITADO, às vezes, põe-se a pensar nestas coisas. Acima de tudo, deseja que tudo o que aqui vai escrito não passe de um chorrilho de disparates.
4.8.11
António Borges de Carvalho

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