Houve um preto que percebeu o que era óbvio, mas não era fácil: que a África do Sul precisava de paz como de pão para a boca.
Houve um branco que percebeu o que era óbvio, mas não era fácil: que o apartheid era tão injusto como insustentável.
Estes dois homens foram capazes de dominar os seus sentimentos mais profundos, de esquecer as suas fundamentadas razões e de sacrificar sentimentos e razões em favor da fundação de um país novo, a maior potência de todo o continente africano, com todas as condições para continuar a sê-lo e para se tornar um farol e um exemplo de progresso, liberdade e concórdia.
Nobre ilusão.
Como no Zimbabué, os impulsos mais rascas continuaram, primeiro em fogo relativamente brando, depois num crescendo em que o exemplo zimbabuense foi, por absurdo que seja, criando raízes.
Até que chegou ao poder um selvagem com um número indeterminado de mulheres e de filhos, que se diverte em cerimónias absurdas, que é suspeito de corrupção, que alimenta um líder da juventude do ANC cujo lema é “morte ao bóer”, que espalha uma seara de ódio pelo país fora, e que, last but not least, é um distinto amigalhaço do repugnante tirano Mugabe.
Neste patético mergulho no pior insere-se o assassinato do chefe dos extremistas brancos e de mais 17 fazendeiros, só nos últimos 30 dias.
O drama zimbabuense está em vias de repetição, desta vez em colossais dimensões.
Mandela já não tem autoridade. O seu sucessor parece, como aconteceu com Mugabe, preferir a vingança, mesmo à custa da mais radical miséria do seu próprio povo.
Se algum bom senso não vier a prevalecer, e nada parece indicar que prevaleça, isto pode trazer ao mundo inteiro uma crise de consequências devastadoras.
Afinal, se virmos bem, também pela Europa há quem tenha pulsões paralelas às dos que se propõem destruir a obra de Mandela.
É o caso “ busca da verdade histórica” dos espanhóis, ou das comemorações do 5 de Outubro em Portugal.
Coisas bem mais “civilizadas”, mas fruto dos mesmos “nobres” sentimentos.
7.4.10
António Borges de Carvalho

Deixe um comentário