Há um senhor, baixote, de barbicha mefistofélica, que se dedica à nobre actividade de cortar nas pensões do povo, de pôr os velhinhos, deficientes e doentes terminais a pão e laranjas, e de coarctar a liberdade dos jóvens de prover ao seu futuro como entenderem. O homem aparece quase diariamente na televisão, a anunciar as suas generosas medidas sociais. É uma aparição terrível, que faz tremer as pessoas. Ao vê-lo, quem não pensa: é desta? É hoje que o gajo me vai sacar mais algum?
Chama-se Vieira da Silva e é ministro não sei de quê.
A seu lado no ècran, ou melhor, um pouco atrás e um pouco à esquerda, ou à direita, está sempre, a espreitar para a câmara, uma espécie de fantasma, um indivíduo sem boca, de olhar mortiço, cuja função (julgava eu), é exactamente essa: compôr as aparições do chefe, enquadrar a imagem, dar à coisa um ar mais temível, como que de uma espécie de antecâmara de missa de corpo presente ou de cena do purgatório em versão socraticóide. Com a presença do fulano, os anúncios do outro ficam mais realistas, tomam um ar de maldição inelutável, infundem nas almas o terror e o tremor necessários à aceitação sem resistência das bordoadas da barbicha.
O "Sol" veio, porém, iluminar o meu conhecimento da verdadeira natureza deste espreitador inveterado de lares com televisão. O homem é secretário de estado do barbichóide ministério.
Estou-lhe grato. É que, na entrevista que deu ao "Sol", veio dar preciosos esclarecimentos. Afinal, ao contrário do que há quem diga, este governo é, nas palavras sabedoras e esclarecidas do fantasma, "marcadamente de esquerda". Eu, que sempre pensei assim, que nunca tive, a este respeito, qualquer sombra de dúvida, não posso deixar de agradecer. Ainda bem que o ilustre senhor o vem dizer, do alto das altas responsbilidades que lhe estão cometidas.
O governo Pinto de Sousa (Sócrates) vai zurzindo as pessoas com nefastos cortes, mentiras desavergonhadas e projectos malucos. É acusado, pelos partidos comunistas, de "fazer política de direita". Sem um protesto, a direita, com a inteligência que, desgraçadamente, a caracteriza, deixa passar. O senhor Pinto de Sousa (Sócrates), espertalhão, deixa passar. Mais tarde, poderá pôr as culpas dos seus desmandos para a direita: foi tal a situação em que me deixaram, que não tive outro remédio senão meter o socialismo na gaveta. Estão a ver? Um fartote: o que correr bem, venha a meu crédito e ao do socialismo; o que correr mal, a culpa é da direita. Genial!
Por isso que seja de agradecer ao espreitador de ècrans o ter vindo, finalmente, pôr as coisas no sítio. O governo é marcadamente de esquerda, as medidas que vai tomando, ou ditatoriais ou megalómanas, são marcadamente de esquerda, a floresta de enganos em que mergulhou o país é marcadamente de esquerda, o abismo a que está a conduzir-nos é marcadamente de esquerda.
Bem hajas, ó fantasma dos ècrans! No meio de tanta mentira, tiveste a coragem de dizer a verdade.
António Borges de Carvalho

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