Há para aí vinte anos, em conversa com um amigo, alto dirigente de São Tomé e Príncipe que ainda se mantém no galarim da política local, ouvi, sem grande surpresa, defender que as ilhas, em vez de se ter tornado independentes, deveriam continuar portuguesas, ainda que com estatuto autonómico, tipo Açores e Madeira.
Como, para mim, o que distingue a Madeira e os Açores, por um lado, e São Tomé e Cabo Verde, por outro, tem carácter racista, achei que o homem tinha toda a razão. Os arquipélagos, “pretos”, se outro caminho lhes tivesse sido dado tomar, seriam hoje regiões ultra-periféricas da União Europeia, e teriam beneficiado dela, e do nosso dinheiro, como aconteceu com as ilhas “brancas”.
Em São Tomé, a loucura soviética e ignorante do MFA e quejandos, aliada ao oportunismo de um bando de pretos, comunas e maoístas (estes “formados” em Portugal), exigiu a independência, à contre-coeur da maioria da população.
O resultado deste triste episódio da descolonização exemplar é o que se conhece: miséria, bagunça, extorsão, corrupção, etc.
É claro que o meu amigo santomense, embora pensasse como pensava, jamais teria coragem para defender publicamente as suas ideias. Iria parar ao xilindró e por lá ficaria sabe-se lá quantos anos.
Vem isto a propósito do referendo que teve lugar na ilha de Mayotte, ao largo de Moçambique.
95,5% dos maiotenses votaram em inteira liberdade a favor de mudar o seu estatuto de “colectividade territorial” para “departamento ultramarino da França”.
Os maiotenses são pretos e muçulmanos sunitas. E, no entanto, vão ter que, em plena consciência, abdicar dos tribunais islâmicos, dos casamentos de crianças e da poligamia, por exemplo. A troco se segurança, cidadania e civilização.
Um caso de sabedoria popular.
Sabedoria popular que, nem a Segunda República, mergulhada no seu desgraçado imobilismo, soube criar, tendo para tal tido tempo de sobra, nem à Terceira, atascada em ideologismos e na mais grave e estúpida iliteracia política, ocorreu sequer fomentar.
Dir-se-á que estas considerações são inúteis. Talvez. Mas há coisas que devem ser lembradas, mais que não seja como confissão geracional e como lição para os mais novos.
1.4.09
António Borges de Carvalho

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