Lembram-se do Vasco Gonçalves aos gritos, a atirar cravos ao povo, no célebre comício de Almada?
Lembram-se do misto de terror (vinha aí uma ditadura muito pior que a outra) e de esperança (o homem estava tão doido que talvez alguém corresse com ele) que invadiu as nossas tremebundas almas?
Pois, meus amigos, 34 anos depois voltámos à mesma!
Ao político-mór desta desgraçada terra, ontem, só faltou atirar rosas à carneirada dos fiéis. De resto, a loucura foi a mesma.
A culpa, desta vez, não é da “reacção”, do “fascismo à espreita”, não é das “manobras do grande capital” nem da “conspiração do imperialismo”. Os culpados são os jornais, as televisões, as cartas anónimas, as ocultas urdiduras dos que, a coberto de uma campanha negra, quais agentes do demo, perseguem o homem para acabar com a sua magnífica obra. Não se trata do regime, do partido, do socialismo, da Pátria. O alvo é ele, a sua augusta pessoa, só ele, ele que é o maior, o mais sábio, o chefe por natureza e direito, ele que, coitadinho, só quer o nosso bem.
Desta vez não houve cravos nem foi em Almada. Mas a loucura, a paranóia, o auto convencimento dos ignorantes, a fuga para a frente, o desvario histérico, só têm paralelo no discurso de Almada.
Pior. Ele acha que tudo pode porque nele a malta votou. Hitler também foi eleito, e Chávez, e tantos outros. Não pode. A Democracia, a propriamente dita, diz-nos que todo o poder tem limites, coisa que o fulano, porque tem a arrogância dos ignaros e dos broncos, nem sequer sonha. Enquanto votarem nele, pode fazer as asneiras que muito bem lhe der na gana. Pode aldrabar sobre tudo e mais alguma coisa, a começar por si próprio, pode deitar fora as trampolinices profissionais que andou anos a fazer para ganhar a vida, pode tirar cursos de esguicho, pode aldrabar sobre défices passados e futuros, pode fazer propaganda ao nada como se de tudo se tratasse, pode gastar o nosso dinheiro e dar cabo do nosso futuro como muito bem lhe apetecer, pode confundir processos judiciais com campanhas de imprensa, pode, pode, pode.
Não pode. Ou não devia poder.
Há quem lá esteja (no Júlio de Matos) por menos.
Ontem, os jornais resumiam os grandes temas da palhaçada unanimista, de tipo soviético, que é o congresso do PS: aumentar os impostos, pôr o Estado a intervir ainda mais, tratar das melhores condições para acabar com a vida de quem está a morrer, casar (?) os defeituosos e os transviados como se se tratasse de um “direito” que nem a Declaração Universal dos Direitos do Homem contempla.
Estes quatro temas, porém, ainda que presentes no bestunto da carneirada, foram largamente ultrapassados pela gritaria de quem, nada tendo a alegar em sua defesa, se limita a tratar de passar o histerismo próprio aos demais, como se do melhor argumento se tratasse.
Hoje, os jornais comentam tristemente o ocorrido. Para além disso, são unânimes em dizer que o primeiro-ministro “virou à esquerda”. Pois. Talvez tenha virado mais à esquerda. Mas, ao contrário do que dizem os partidos comunistas, do que pensa a estupidez da direita e do que almejam os capitalistas que o socialismo protege, Pinto de Sousa, o louco, esteve sempre à esquerda. Desde o primeiro minuto. O que sofremos hoje são as consequências do poder que a esquerda tomou há quatro anos e que, aos poucos, se vai tornando absoluto.
Quem quiser mais do mesmo, vote nos partidos comunistas ou no PS.
28.2.09
António Borges de Carvalho
PS (post scriptum!): Hoje à noite, a caixa de ressonância do senhor Pinto de Sousa teve que fechar mais cedo, porque… faltou a luz.
Nos meios próximos do primeiro-ministro é voz corrente que amanhã o discurso de sua excelência será dedicado a mais este capítulo da campanha negra que lhe é movida pelas forças ocultas que, infiltradas na EDP, conspiram contra a sua ilustre pessoa. As mesmas fontes temem que o homem tenha um ataque de histerismo ainda mais grave que o de hoje. Receando do que o paroxismo dos queixumes o leve a alguma apoplexia, é voz corrente que o secretariado do congresso tem já reservada uma equipa de psiquiatria e um colete de forças.

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