Fui amigo de um senhor, falecido há um bom par de anos, que conhecia muito bem o nosso actual primeiro-ministro. O meu amigo admirava-lhe a verve, a persistência, a coerência na prossecução de objectivos. Criticava-lhe a incultura, a ignorância, o provincianismo, a inteligência mediana, a capacidade de atropelo e o desenrascanço teimoso e sem critérios morais que se vissem.
Na sua opinião, se o senhor Pinto de Sousa fosse devidamente “monitorizado”, isto é, se “comprasse” uma boa ideia, seria como um cão a defendê-la. Caso contrário era uma desgraça. Se embarcasse na asneira, ou se o fizessem embarcar, ninguém o tirava de lá.
Foi o que aconteceu, por exemplo, com a chamada co-incineração. Mesmo quando lhe foi demonstrado, por a+b, que havia melhor solução, agarrou-se àquilo e foi o que se viu. Se, pelo contrário, tivesse bom conselho e boa companhia, era capaz de coisas notáveis, como aconteceu com o Tratado de Lisboa.
Estas qualidades e estes defeitos vieram a caracterizar-lhe o mandato. O pior é que os defeitos, sempre mais fáceis de praticar que as virtudes, acabaram por tomar conta dele ao ponto de ser legítimo, hoje, duvidar da mera inteligência do homem.
Praticou, ao longo do mandato, a “doutrina” da mentira, da criação de expectativas, da promessa fácil, da manipulação, da ausência de escrúpulo, do desprezo pela inteligência e pela dignidade de terceiros.
Quem se esqueceu do primado da economia sobre as finanças que defendia antes das eleições, e do primado das finanças sobre a economia que praticou assim que subiu ao poder?
Quem não se lembra dos cento e cinquenta mil empregos, do não aumento de impostos, da repugnate trafulhice orçamental e de tantas e tão evidentes inverdades, meias verdades e mentiras que marcaram a desgraça nacional do seu mandato?
Quem não se lembra da escolha do “Magalhães”, à revelia das boas práticas e dos procedimentos administrativos aplicáveis?
Quem não se apercebe do castrador aumento do peso do Estado, do poder do despacho sobre o da lei, da eleição de parceiros particulares em desrespeito do interesse geral?
Quem não sente na pele a vergonha da escolha do senhor Chávez como parceiro preferencial?
Quem se esqueceu da pessegada académica, do inglês técnico, dos projectos pacóvios, tudo coisas que, cada uma de per si e todas somadas, deveriam ter chegado para caracterizar o personagem como absolutamente indigno do mandato que o eleitorado lhe deu?
Parece que, apesar de tudo isto, o paleio infrene e o espernear do homem acabaram por anestesiar a sociedade portuguesa, matraqueada com a propaganda das doiradas perspectivas que a brutalidade dos impostos e a tirania fiscal, mascaradas de “rigor orçamental”, lhe abriam.
Para quem não bastava o que bastava, os últimos dias têm demonstrado como, objectivamente, já nada resta que justifique dar-lhe uma réstea que seja de benefício da dúvida.
Não interessa saber se o homem recebeu dinheiro ou não. É um detalhe menor. O pecado, esse bem provado, é o de ter presidido e defender um processo administrativo trafulha, um ror de atropelos e de manigâncias. O pecado é o de vir apresentar-se-nos angelicamente, assacando a imaginárias forças “ocultas”, a fantasmáticos intentos “negros”, a miríficas “perseguições” políticas os males que as suas próprias acções criaram. Nem um só argumento, uma só certeza, um único facto ele aduz que permita justificar o que fez ou deixou que se fizesse. Limita-se a uma queixa contra desconhecidos que, a partir do “oculto” se movem espalhando calúnias e congeminando urdiduras. Para além, é claro, dessa monumental cobardia que consiste em dizer que “não assinou nada”!
Ao ouvi-lo, os portugueses devem pensar se estará bom da cabeça.
A resposta é: está, é feitio, não é defeito.
1.2.09
António Borges de Carvalho
PS. Por falar de loucura, vale a pena ler um artigo que a dona Fernanda Câncio, jornalista usualmente preocupada com questões fracturantes e distinta defensora dos “direitos” dos pederastas e da fufas, publicou no DN. Tratava a senhora de uma conspiração para dar cabo de um homem. Quem? O senhor Pinto de Sousa? Não! O Capitão Dreyfus!
Terá a senhora, como é voz corrente, razões de ordem sentimental para escrever o que escreveu. Mas, que diabo, não havia necessidade! Coitado do Dreyfus, sofreu o que sofreu e ainda há quem se sirva do seu cadáver em proveito próprio!

Deixe um comentário