Tinha este escrevinhador acabado, coberto de glória, o primeiro ano do liceu, eis senão quando lhe declaram uma doença, muito comum à época, conhecida por “gânglios”, ou “primo-infecção”, enfermidade que era a antecâmara da tuberculose, ou coisa parecida.
Imediatamente reduzido a uma inactividade forçada, foi tratado com os carinhos necessários. Ir às aulas, nem pensar. Estudar, não, que o médico não deixa. Nada de praia, nem cansar-se, nem brincar. Passou quatro meses com o pai, no campo, respirando o ar puro de matas e pinhais e tendo como mais cansativa actividade jogar com ele ao crapaud. Lia os livros do “Zé Fagulha”, grande detective daqueles tempos e, compulsivamente, dormia a sesta todos os dias, deitava-se com as galinhas e acordava o mais tarde possível. Feitas as contas, não foi desagradável nem lhe fez, em termos de futuro, diferença que se visse.
A doença lá passou. No ano lectivo seguinte, voltou ao liceu. Os seus colegas do primeiro ano estavam no terceiro, ele entrou para o segundo. Foi chato, vê-los lá à frente, e ele, coitado, com os “putos”.
Tinha “chumbado por doença”. Uma coisa triste, mas “normal”. Um tipo que não vai às aulas, seja lá pelo que for, não aprende. Como não aprende, tem que chumbar. Cristalino. Evidente.
Descubro agora que o que me acontecia era ser vítima do fascismo totalitário. Que culpa tem uma pessoa de adoecer? E, se não tem culpa nenhuma, qual é a justiça de chumbar?
A nova geração não come desta malga, como é óbvio. Passar é um direito, quer se vá às aulas quer não. Chumbar por faltas é uma violência absurda. Saber a matéria ou saber coisa nenhuma tem exactamente o mesmo significado e o mesmo resultado.
É para este tipo de “educação” que o governo “trabalha”. Como os nove anos de escolaridade são obrigatórios, a única solução, acha o governo, é passar toda a gente, quer estude quer não estude, quer saiba quer não saiba. Exames? Que horror, que violência gratuita e imoral!
Empurrados pela filosofia triunfante, os alunos fazem manifestações e dizem à televisão que faltar é uma necessidade, como ouvi ontem. Com que direito se exige aos pequenos que vão às aulas? Um “dirigente” – badameco de treze anos – afirmava, também ontem, que isso de “aulas de substituição” é uma inutilidade já que os alunos têm todo o direito de usar a seu bel-prazer as faltas dos professores. E chumbar por doença é a maior das vilanias.
Presume-se que, dada a sua carreira académica, o senhor Pinto de Sousa se reveja, orgulhoso, neste tipo de “educação”, e esteja pronto a afirmar, já que é seu costume ser afirmativo, que tudo vai pelo melhor e que os alunos até sabem que dois mais dois são quatro.
19.11.08
António Borges de Carvalho
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