Hoje, 11.11.08, foi publicado mais um importantíssimo contributo do Presidente Soares para o futuro da humanidade. Quatro colunas de lugares comuns ditados pelo entusiasmo juvenil do articulista com eleição do senhor Obama.
Na opinião do senhor Presidente, os seus conselhos, desejos e ilusões vão ser postos em acto pelo afilhado, o qual, por certo, não terá deixado de ler os vários programas de governo que o Dr. Soares já escreveu para ele.
Não se sabe até onde irá o entusiasmo do nosso semanal opinador. No entanto, assinalemos que acha imperioso que o seu afilhado se não esqueça de pôr fim aos desmandos dos “neo-liberias”. Dos mesmos que, aqui há uns anos, apoiavam o Dr. Soares nas suas diligências para a “criação de grandes grupos económicos e financeiros”, para “acabar com os pobres”, e para outras nobres intenções que até fizeram escola, mais que não seja através da actual política do seu impagável partido.
O presidente Soares quer que o senhor Obama acabe com as “duas cruentas guerras, excepcionalmente violentas, alimentadas por mentiras e por inconfessáveis interesses, pela arrogância do poder e pelo desrespeito pelos direitos humanos”.
Pois. O Presidente Soares acha que, guerras, só as que tiverem o “aval da ONU”. Esquece que a “cruenta” guerra do Afeganistão tem mandato expresso da ONU. Talvez porque lhe convém, assaca tal guerra aos americanos, isto é, ao seu odiado Bush, personalidade que, além de tudo mais, comete o nefando crime de não ser da esquerda. Esquece que o seu afilhado Obama já afirmou mais do que uma vez que tenciona reforçar o contingente militar no Afeganistão, eventualmente com transferência de tropas do Iraque. Esquece que a Europa também já fez uma guerra, na ex-Jugoslávia, sem mandato da ONU. Esquece que a guerra no Iraque, se é “cruenta”, é-o por causa dos próprios iraquianos e não das tropas americanas, as quais, enquanto se tratou de luta de exércitos, foram, como na ex-Jugoslávia, o mais “clássicas” possível. Esquece que, se a guerra que a ONU conduz no Afeganistão, via NATO, é “cruenta”, é-o porque se enfrenta uma ameaça tresloucada de fundamentalistas, cuja justificação filosófica é o extermínio dos “infiéis” como o Dr. Soares, e cuja base económica é quase exclusivamente a produção de drogas, arma de destruição maciça como as demais.
Ao falar de “direitos humanos”, Soares esquece também que Guantanamo e AbuGraib, em si eventualmente condenáveis, são brincadeiras de criança se comparados com as centenas de milhar de mortos, vítimas inocentes de bombistas suicidas e quejandos.
O Presidente Soares, calcule-se, chega ao cúmulo de apontar baterias contra a “chamada” “democracia liberal” (as segundas aspas são dele), esquecendo que é essa a democracia em que vivemos, em que vivem os EUA e que foi, em tempos, defendida pelo próprio Soares. É a democracia que nasceu, à bordoada, em França, que foi evolutivamente criada pelos anglo-saxónicos e que até é defendida pelos “irmãos” do Dr. Soares, “filhos da viúva” como ele. A tal democracia não é, nem por sombras, uma coisa que Bush inventou “para impor ao mundo”, como diz, textualmente, Mário Soares.
Na esteira daqueles de quem foi compagnon de route primeiro e adversário depois (agora não se sabe), Soares revolta-se contra “a hegemonia imperial americana”. O camarada Jerónimo não diria melhor.
Soares esquece que as ideias que agora “cruentamente” condena tiraram da fome e da mais “cruenta” miséria incontáveis milhões de pessoas, na China, na Índia, no Brasil e até em África. Onde o leva a feroz cegueira ideológica de que está possuído!
Sendo verdade que o sistema entrou em crise e que é necessário restaurá-lo, talvez noutros moldes, não o é menos que, sem ele, não havia, nem social-democracia na Europa, nem riqueza ou condições mínimas de sobrevivência fosse onde fosse.
Nem o Dr. Soares teria direito a pronunciar-se, da forma irresponsável e irreflectida como o faz ou de outra forma qualquer.
E mais não digo, ainda que houvesse muito mais a dizer.
Felizmente, tenho a secreta esperança de que o senhor Obama marimbe nos esquerdismos desta triste Europa, e venha a ser uma espécie de Lula dos EUA. De momento, como já escrevi, não passa de um Pinto de Sousa com preparação académica.
11.11.08
António Borges de Carvalho

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