Em mais uma formidável demonstração da excelência do poder local, a Câmara de Barcelos resolveu cortar a água às casas das pessoas… que não têm água lá em casa!
Passo a explicar:
a) A Câmara de Barcelos, generosíssimamente, brindou uns desgraçados quaisquer com abastecimento de água, o que quer dizer que, em 2008, ainda há quem a não tenha neste progressivo e rico país socialista;
b) Acontece, como é natural, que as pessoas já se tinham desenrascado com poços e respectivas facilities, coisa teoricamente normal e legítima mas mal vista pela câmara;
c) Como primeiro resultado da referida benesse autárquica, foram as pessoas avisadas que teriam que mandar construir as necessárias baixadas, a fim de levar a água da câmara às respectivas residências;
d) Para cumprir esta obrigação(?), as pessoas teriam que pagar a obra em causa(!);
e) Mas, como a câmara é generosa, se a coisa fosse feita a curto prazo, custaria xis, se fosse a médio ou longo prazo, a mesma obra custaria xis vezes dois;
f) Como terá havido alguns seres anti-sociais que, ou por não lhes apetecer ou por não ter dinheiro para pagar, se recusaram a encomendar a baixada, a honesta autarquia mandou lá uns tipos cortar o abastecimento de água a partir dos poços de cada um.
Aqui temos, minhas senhoras e meus senhores, um exemplo verdadeiramente “democrático” do que é o poder em Portugal. Quem o tem, manda em tudo, ao ponto de privar as pessoas do que é seu, ao ponto de as fazer pagar o que já tinham, fornecido pela mãe natureza e pelos seus investimentos pessoais, ao ponto de as privar de um bem essencial que de pleno direito lhes pertencia.
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Faz lembrar uma reclamação que, em tempos, apresentei à câmara de Cascais. É que eu tinha uma fossa para os meus mal-cheirosos dejectos. Vem a câmara e, muito bem, constrói o saneamento básico. Lá foram umas centenas de contos para a famosa baixada. Ora como, há muitos anos, eu andava a pagar, nas contas da água, um saneamento que não tinha, e como os meus pagamentos para tal inexistente serviço já somavam mais de mil contos…
Baldada intenção. A câmara respondeu que. Os advogados disseram que era uma chatice mover um processo, mesmo com boas hipóteses de o ganhar. Como sempre, valia mais um mau acordo que uma boa demanda. Qual acordo qual carapuça! A câmara tem o poder e acabou-se.
E ainda há quem se queixe da criminalidade económica, dos crimes de colarinho branco, etc.
Os cidadãos têm que compreender o conceito de cleptodireito. Num país socialista, há o cleptodireito legal, poder do estado e das autarquias, e o cleptodireito ilegal, que não é direito, praticada pelos cidadãos que seguem o exemplo do poder.
Voilá, como diria o Lino.
António Borges de Carvalho

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