O inenarrável Coelho continua ao ataque. Os governos, os parlamentos, os polícias, os exércitos, as irmãs da caridade, tudo, todos, estão, ou deviam estar ao seu serviço.
O impossível Coelho é uma máquina. Uma máquina imparável, infatigável.O espectacular Coelho explora até à exaustão a janela de oportunidade que lhe foi aberta para sair dos mais obscuros corredores da política. Nesta coisa da luta contra o terrorismo, o impagável Coelho não tem dúvidas: o que é preciso é descredibilizar os EUA, preferencialmente arrastando com eles os europeus e outros que tais, desde tenham aeroportos onde deixem aterrar os aviões dos aliados, nefando crime merecedor das mais rebuscadas investigações. Deixemos sossegados os bin-ladens, os ezebolás, mais a restante plêiade de impolutos patriotas. Preciso, é acelerar a contestação a esta maldita civilização, dita cristã e ocidental, que, por o ser, tem a mais estrita obrigação de se martirizar e deixar acorrentar pela barbárie.
Ninguém ouviu da boca do espantoso Coelho qualquer palavra sobre a exploração irracional, abusiva, mentirosa e feroz, da lição universitária do Papa. Ninguém ouviu dele uma palavra no aniversário do 11 de Setembro, ninguém lhe conhece declarações sobre os atentados de Londres ou de Madrid.
Conhecido é que o Coelho persegue, anatemiza, condena, critica, despreza todos os que lhe não prestem a devida vassalagem, todos os que lhe não forneçam, com submissa prontidão, o que ele quer que forneçam (sublinho, não o que têm para fornecer mas o que ele quer que forneçam), não obedeçam, no que ele acha que é o devido tempo, às suas convocatórias, lhe não dêm satisfação aos mais policiescos instintos. Na sua douta opinião, os governos europeus devem-lhe obediência e, sobretudo, devem dizer-lhe quem eram, para onde iam, de onde vinham, os passageiros dos aviões americanos que tiveram a ousadia de pousar nos seus aeródromos. Se as opiniões do Coelho fizessem escola, a partir de agora todos os aviões que por cá pousassem teriam que entregar ao Coelho a ficha policial de cada um dos passageiros transportados, não fosse algum deles ser suspeito de terrorismo e, nessa qualidade, merecer o mais profundo respeito e a melhor das atenções.
Nunca ninguém viu (aliás poucos serão os que, alguma vez, deram pela coelhal existência) o senhor Coelho defender os direitos humanos dos bósnios, dos croatas, dos imigrantes, das mulheres dos talibãs, dos cubanos, dos norte-coreanos, o direito de Israel à simples existência, e por aí fora.
O Coelho não está satisfeito com as informações, com os documentos, com o que dizem os governos dos países livres. Não! O Coelho quer mais. Quer aparecer no Diário de Notícias, no Público, na CNN, onde seja que a sua nobre missão o justifique. A nossa “comunicação social”, ao serviço do inimigo (bem se viu, no caso da lição do Papa), dá-lhe espaço e imagens, todos os dias e a todos os propósitos.
Há quem diga que as civilizações desaparecem quando perdem a noção da defesa dos valores que as fazem existir, e passam a dar ao inimigo as mesmas prerrogativas que dão aos seus. Há quem diga que as civilizações desaparecem quando passam a dar mais atenção aos erros próprios do que às manobras dos seus inimigos. Na nossa, parece que se tornaram mais ouvidos os que se entretêm a condená-la dos que os que, melhor ou pior, se propõem defendê-la.
Se os coelhos proliferarem, coitados dos nossos netos!
António Borges de Carvalho

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