Anda para aí uma polémica dos diabos sobre uma escultura em raiz de negrilho, árvore ao que se diz muito do agrado de Miguel Torga, que ornamenta um sítio qualquer lá para o Norte. Tal trabalho propõe-se retratar a cabeça do poeta, acrescentando-lhe vasta e lenhosa cabeleira. Descontada esta, parece-me que a cabeça lembra, com alguma fidelidade não só os traços fisionómicos do senhor como a sua bem conhecida severa expressão.
Mas a malta não gosta. Sobretudo a esquerda dos donos disto tudo. Por mim, acho que o trabalho do escultor, se comparado com o que vemos por aí, é uma obra prima. Num país pejado de mamarrachos, esta escultura é uma maravilha. Olhem para o piço erecto no alto do Parque Eduardo Sétimo, a esguiçar mijocas na vertical, caindo o produto sobre um monte de horrorosos pedregulhos, esculpido (?) por alguém politicamante correcto. Ainda por cima, há quem diga que significa a “liberdade”! Olhem a cabeça de Sá Carneiro, miseravelmente decapitada na praça do Areeiro, homenagem póstuma de alta valia, segundo o parecer da Câmara. Olhem as vigas que um artista, ao que se diz consagrado, pôs, sem discussão, à beira mar, lá para os lados do Porto. Olhem as centenas de atentados à arte e ao bom gosto, generosamente distribuídas por tudo o que é rotunda por esses campos fora.
E preste-se homenagem ao escultor e à junta de freguesia não sei de onde, pela sua digna iniciativa.
20.8.20

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