Esta história das explosões no Líbano não tem descrição possível. É um horror, ponto. Faz correr rios de tinta, como se justifica. Há os repórteres, os socorristas e, sobretudo, os grandes intelectuais cá do burgo.
Permitam-me que sublinhe um deles, para ver onde se pode chegar. O senhor Rui Tavares, conhecido cá em casa por Tavares Mau – por contraste com o JM Tavares, o bonzinho – cozinhou uma série de observações altamente cultas sobre o assunto. Ficámos a saber que somos todos filhos dos libaneses, via fenícios, via alfabeto, via romanos, via uma data de gente, num bouquet histórico só passível de ser produto de superiores conhecimentos, julgo que todos disponíveis na Wikipedia. Além destes esclarecimentos, que muito agradeço ao tal Tavares, o dito dedica-se, por exemplo, a condenar veementemente o senhor Macron, que terá ido a Beirute em odiosa manifestação de neocolonialismo. E mais: condena o dito a União Europeia, que não terá reagido reunindo imendiatamente os chefes dos governos, a fim de montar uma operação conjunta de socorro, ainda que já lá esteja a malta toda a fazer o que pode e sabe. E a dona Ursula, um produto da direita reccionária, imagine-se que não obedeceu aos desejos do ilustrérrimo Tavares! E mais ainda, o dito fala do Líbano dos nossos dias (conhecido saco de gatos) sem tocar na orla das vestes do Hezebolah (é assim que se escreve?), o qual, apesar de listado como organização terrorista em todo o mundo civilizado, apesar de ser parceiro de eleição de iranianos, daeches e coisas do género, apesar de ter no currículo centenas de milhar de mortos, apesar de ser uma das forças político militares mais horrorosas do mundo e de ser residente do Líbano, com território e tudo, não faz parte da crónica nem dos conhecimentos do senhor Tavares.
Onde pode chegar a intelectualidade de esquerda é coisa difícil de imaginar, não é?
9.8.20

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