“Não há nenhuma intenção do Ministério da Defesa em limitar os direitos dos militares… excepto aqueles de que voluntariamente abdicam quando abraçam a vida militar”.
Este mimoso raciocínio foi expendido por um tipo – conheci-o há uns anos em Paris e fiquei certo de que se trata de um idiota – que é secretário do senhor Papuliano, ou Anaximandro, ou lá como é que o homem se chama.
Quer o fulano, com isto, justificar mais uma medida do governo do senhor Pinto de Sousa, a qual, na melhor das hipóteses, faz lembrar o Estado Novo, a PIDE e outras veneráveis instituições do nosso glorioso passado. Segundo tal inteligantíssima medida, os militares na reserva ou na reforma ficam impedidos de divulgar as suas opiniões. As penas para os prevaricadores, presumo, vão da privação do fim de semana ao cancelamento do ordenado ou da pensão. Esta última ideia (diz-se) vai ser recebida com grande alegria pelo senhor Santos. Num instante, a criatura já fez as continhas aos euros que vai sacar à malandragem que se atrever a pronunciar uma conferência, dar uma entrevista ou publicar um artigo num jornal.
Quer dizer, o idiota não percebe que há uma diferença entre a crítica pública da hierarquia, a desobediência ou a intervenção política tendente a pôr em causa a aceitação de ordens legitimamente dadas, e os contributos intelectuais dos militares para a formação da opinião pública, para a informação das políticas de defesa e segurança ou para outra qualquer faceta da governação, ou ainda para o mero comentário sobre política externa, crises internacionais ou episódios militares. À la limite, os militares na reserva ou na reforma não poderão, na opinião da inacreditável criatura, fazer crítica de cinema ou pronunciar-se sobre a crise do Benfica.
Toda a gente vê, e percebe, e acha bem, que militares na reserva ou na reforma contribuam, com as suas bem informadas opiniões, para o esclarecimento das gentes, para o enriquecimento e elaboração intelectual de estudantes e professores, para as universidades, os institutos políticos, os think tanks da política em geral e da política de defesa em particular. Isto passa-se, aliás, em todo o mundo civilizado. Os militares devem ser disciplinados enquanto tal, e, uma vez “na peluda”, devem contribuir com o seu saber, feito de estudo e de experiência, para a sociedade de que fazem parte.
Em Portugal, felizmente, há um número razoável de intelectuais militares, na reserva ou na reforma, que dão um importantíssimo contributo à Nação através das suas opiniões e propostas. Poderia talvez admitir-se que lhes fosse vedado instigar à indisciplina dos que estão no activo, ou aplaudir atitudes de manobrismo e de contestação às ordens da hierarquia ou do poder legítimo, como o passeio do Rossio ou outras alarvidades do género. Mas não é disso que se trata. O idiota quer fechar em casa os militares na reserva ou na reforma e proibi-los de existir enquanto cabeças pensantes.
Quem ainda não percebeu o que se está a passar em Portugal no que à liberdade diz respeito, tem aqui mais um evidente exemplo da mentalidade, verdadeiramente totalitarizante, do senhor Pinto de Sousa e dos seus sequazes.
António Borges de Carvalho

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